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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 3/18

Tive aquela fase Legião Urbana

Max Eluard  Como foi a educação de vocês, desde a formal até a informal?
Clayton  Escola da rua conta? Fiz o 2º grau em Arcoverde, mas estudei a 7ª série aqui. Aí, banda marcial, escola estadual. Isso para o cidadão comum, porque quem coloniza é quem impõe essa coisa ao cidadão comum. Das tribos que têm em Pernambuco, só uma mantém seu idioma.
Max Eluard  O resto já se foi.
Clayton  Do dialeto dos Xucurus conseguiram catalogar poucas palavras.
Max Eluard  E como é que foi a educação de vocês?
Emerson  A minha educação escolar foi até onde me interessei mesmo. Então, fui até o final do ginásio, mas morei em outras regiões de Pernambuco. Cheguei a morar na região metropolitana de Recife. Tive acesso a várias coisas, mas falando de educação informal, da cultural que me ligou à música, colhi toda em Arcoverde, mesmo.
Clayton  Costumo dizer que os meus livros são os discos. [risos] Não tenho muito saco para ler. [risos] E tenho muito long-play! Foi onde aprendi muita música e violão, de você pegar uma música com o disco, com o braço da radiola, “Êta, essa nota?!”, voltar e escutar.
Sérgio Seabra  Que discos ou gêneros?
Clayton  Eu gostava muito de Geraldo Azevedo, João Bosco, entre outros, mas muita música nacional. Nunca tive relação, a não ser na época em que morei aqui, quando ouvia algumas bandas de fora. Na minha adolescência tive aquela fase Legião Urbana [risos] e depois mesmo músicas do Nordeste, quando comecei a comprar e a colecionar discos. Coisas de Elomar, discos que não tocam em rádio, que você tem uma certa dificuldade em encontrar.
Tacioli  E a sua, Nego?
Clayton  E de Recife, Morro da Conceição?
Emerson  Ele é o nosso representante do Morro da Conceição.
Nego  Não entendi muito a pergunta.
Tacioli  Como foi a sua educação formal e a informal?
Nego  Foi muito engraçada. Sempre diziam que eu não me interessava muito por estudo. Fiz até quase o finalzinho da oitava, porque comecei a trabalhar logo cedo por questão de família, aquelas coisas. Depois fui me interessando em viver de uma coisa que batia dentro de mim. Eu não conseguia ficar sem tocar. Quando eu era muito novo, bastava ouvir qualquer coisa em rádio ou em disco para ficar batendo na hora do almoço com as colheres. [risos] “Nego, tá na hora de você ir para a escola”, e eu não ia, ia para o ensaio da banda. Depois até entrei em outra escola onde tinha Ciência, Português, aquelas coisas de menino decente. [risos] Não, estou brincando. E foi lá que comecei a ter espaço para aprender a tocar, me entregar mais a ritmos, a técnicas de instrumentos. Fui me interessando mais e mais pela música. Esse foi o estudo que tive maior interesse, desde pequeno. Na minha família tem uns que freqüentam terreiro de umbanda e alguns são bailarinos, outros são músicos, uns primos da gente. Então, foi muito daquela coisa de você estar vivendo numa família como se estivesse em uma tribo, uma família com um ciclo de percussionistas. Só falta a gente montar um grupo só da família. [risos]
Tacioli  Então, sua família aceitou o fato de você assumir a música como prioridade?
Nego  A primeira vez que eu viajei com o Cordel e saí de casa pela primeira vez, foi quando vim para São Paulo. Minha mãe nem conhecia o trabalho, só sabia que eu tocava. Tanto que durante esse tempo todinho – vai fazer quatro anos – minha mãe foi ver pela primeira vez um show do Cordel no Carnaval lá no Rec-Beat. E nem conhece todo mundo da banda. Não, ela sabe quem é o Lirinha, sabe quem é o Clayton. “Quem são os doidos com quem meu filho está andando?!” [risos] Mas foi isso, desde criança vivendo dentro de terreiro de umbanda com minha vó. Então é tudo de menino que vê um instrumento e quer tocar, nem que seja uma lata. Música o tempo todo.
Max Eluard  E você, Lirinha?
Lirinha  Eu completei o 2º grau e ainda fiz vestibular em Arcoverde, onde tem uma autarquia de ensino superior, a ESA.
Clayton  CESAr! [risos] Não, só para não perder a piada! [risos]
Max Eluard  Deu para perceber! [risos]
Lirinha  Não, é por que a ESA mudou para CESAr, Centro de Ensino Superior de Arcoverde. E um amigo nosso numa palestra disse…
Clayton  Ele é professor.
Lirinha  “Eu queria agradecer a presença da presidente da ESA, Divazir Guerra”, era o nome da mulher. Aí disseram para ele, “Não, é CESAr, não é mais a ESA”. [risos] Aí ele, “Não é mais a professora Divazir, é o professor César!” [risos] Fiz Letras, mas coincidiu com a saída do Cordel para Recife, e eu abandonei o curso. Não sou uma pessoa que tem uma história de muito envolvimento com a educação. Fui reprovado duas vezes, inclusive uma vez em Literatura. Estudei, gosto muito de ler, leio muito até hoje, mas também considero que grande parte do ensinamento e dos conceitos, vamos dizer assim, herdei na escola e meus maiores crescimentos foram quebrados quando os destruí. Na verdade, acho que a geração da gente já nasce, diferente da do meu pai, é uma análise minha, com muito conceito preparado. A gente parece que avança destruindo-os.
Marta  Não tem os padrões.
Lirinha  A geração do meu pai parecia que construía porque havia um vazio.

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