gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 2/18

Lula Calixto toca com a gente, mas ele já morreu!

Almeida  Se Arcoverde é uma cidade-dormitório, quem acabou ficando por lá? Que pessoas acabaram criando a identidade da cidade?
Lirinha  A identidade acabou sendo formada por essa movimentação. É uma cidade de um sincretismo religioso exagerado e interessante, porque as pessoas que entram nos únicos terreiros ligados à religião africana são aquelas que também participam da missa dominical. É uma cidade que, ao mesmo tempo, vive em contato com todo o resto do mundo – até pela Internet –, mas tem muita dificuldade de mandar mensagem. Então, é uma cidade muito importante na região, mas se sumisse do mapa não faria falta nenhuma ao mundo. Ela tem essa característica especial: é uma cidade onde as pessoas nascem, se desenvolvem, criam vários sonhos, mas essa é uma perspectiva que morre automaticamente ali junto com a vida da pessoa.
Clayton  A vista acaba na serra. Agora, pela influência desse povo que passou por lá, a arte é incrível. De um lado tem a aldeia dos índios Xucuru e as cidades por perto também tem uma movimentação artística devido aos índios e aos negros. Arcoverde tem um bairro, o Alto do Cruzeiro, que é o bairro dos negros. E tem um distrito do lado, Caraíbas, onde acontece o reisado, que é dos negros que moram lá e só vão para à cidade no dia de feira, que é o sábado.
Marta  E é lá que rola o batuque?
Clayton  É, eles também tem o batuque, como o Alto do Cruzeiro. Acho que foi dessa movimentação do povo que trouxe também muita veia artística para a cidade.
Lirinha  Porque é uma grande mentira esse negócio de que um lugar não tem isso ou não tem aquilo. Essas manifestações existem onde há seres humanos. De alguma forma, sempre vai acontecer um som, uma poesia. Agora, os vigilantes da tradição apontam Arcoverde antes do surgimento do Cordel, de um grupo chamado Raízes do Coco que fez seu primeiro CD no ano em que o Cordel fez também o seu. Mas até então todo mundo considerava Arcoverde um vazio cultural.
Emerson  Até por que Arcoverde não é como Recife, em que você chega na época do Carnaval e todo mundo vai dizer para você “Tem caboclinho em Olinda! Maracatu nas ladeiras de Olinda!” Era uma coisa muito sutil você chegar na cidade e ficar sabendo. Hoje em dia, não. Hoje a coisa mudou, as pessoas de lá passaram dar mais valor, a própria sociedade, e acho que mais pessoas começaram a desenvolver arte. Hoje em dia é uma coisa mais clara, mas em outros tempos era difícil. Não era como Salvador, que vive da cultura local.
Clayton  O Lula Calixto é chamado de doido em Arcoverde. [risos]
Max Eluard  Quem é chamado de doido?
Clayton  O Lula Calixto, que toca com a gente. Ele já morreu. A gente tem o som dele. Ouvimos muito. Ele tinha muita informação, não só artística, mas de vida. Ele era tido como uma pessoa anormal.
Almeida – Por que?
Lirinha  Mas ele tinha tido mesmo problemas mentais. Ele se vestia de uma roupa diferente, fazia seus próprios sapatos e a turma achava que ele era doido. Ele tinha um tabuleiro de cocada que quando passava uma banda tocando, ele botava o tabuleiro no chão e ia embora. [risos]
Clayton  Se o pessoal dissesse “Lula, dance um coco para eu ver”, na hora ele improvisava alguma coisa.
Lirinha  No meio da rua, em qualquer hora.
Clayton  O dia que fosse, ele não tinha certos pudores.
Marta  E essas são referências para vocês.
Lirinha  Eu vejo uma coisa muito interessante nesse negócio de Arcoverde: tem uma tribo, que é a Xucuru, que a gente sabe pouca coisa deles, pouquíssima. Provavelmente eram os habitantes dessa região toda. Provavelmente porque o único livro de reminiscências da minha cidade diz apenas assim: “Arcoverde, antigo território Xucuru”. E passa. [risos] O livro tem 500 páginas. Pô, o mais importante! Não o mais importante, mas o resto do livro é a genealogia das famílias brancas que chegaram lá. E chegaram de que forma? Tudo ali era habitado pelos índios. Teve uma famosa guerra, não sei se vocês conhecem, que é a Guerra dos Bárbaros, que ocorreu no Nordeste brasileiro e o núcleo dessa guerra foi a região da gente. Os índios que não falavam tupi-guarani e que foram considerados tapuias – generalizaram o nome tapuia, índios que inclusive não se falavam entre eles, mas viraram tudo a mesma coisa, que eram esses do sertão. O pessoal de Portugal ganhava a sesmaria e mandava os bandeirantes abrir caminho. Aí tem as figuras do Domingos Jorge Velho, que é daqui e ia para lá abrir o caminho e botar as primeiras cercas. Até hoje é uma perseguição muito grande com esse negócio do Xucuru, que o pessoal acha melhor dizer que não era Xucuru, entende? Então, é muito difícil você encontrar isso agora. “Vamos fazer uma pesquisa. Quem era Xucuru aqui?” Foi melhor assumir os valores daquele povo mais forte para não morrer ou então para se inserir na sociedade, e a cidade vive até hoje mais ou menos nesse esquema de empregar valores dos mais fortes na sua vida.

Tags
Cordel do Fogo Encantado
de 18