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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 1/18

Arcoverde nasceu do pouso e da passagem de almocreves

Ricardo Tacioli  Quem não tem cerveja?
Max Eluard  Cerveja? Aceito.
Lirinha  Hoje é segunda, né? Boêmia pesada! [risos]
Tacioli  Depois do meio-dia, tudo bem.
Nego Henrique  Vai ser com esse cenário? [apontando para as cervejas]
Max Eluard  Vai.
Nego Henrique  Então, estamos à vontade. [risos]
Tacioli  Vamos lá?
Daniel Almeida  Aqui está beleza!
Max Eluard  Vocês poderiam se apresentar um a um.
Lirinha  Se apresenta, Nego!
Nego Henrique  Meu nome é Nego Henrique, faço percussão e voz no Cordel do Fogo Encantado. Moro em Recife, no Morro da Conceição, zona sul de Pernambuco.
Lirinha  “Moro em Recife”, tá vendo?
Nego Henrique  O que foi? Também moro em São Paulo. [risos]
Emerson Calado  Sou o Emerson Calado, de Arcoverde, faço percussão e voz.
Clayton Barros  Sou Clayton Barros, toco violão, canto, componho umas coisas também e sou de Arcoverde.
Lirinha  Eu também sou de Arcoverde. O meu nome é José Paes de Lira Filho, conhecido por Lirinha, porque desde muito cedo ganhei esse nome. Meu pai é Lira. E estamos aí para conversar.
Max Eluard  Como foi crescer em Arcoverde?
Clayton  Foi uma infância muito legal. Lá em casa tinha um grande jardim, um grande quintal, com muitas árvores. Contato com a natureza, com bicho, riacho, barragem. Fui também muito em feiras. Sempre com esse contato social e com o próprio ambiente, com a cidade. Eu não tenho do que me queixar da minha infância, do nascer até os doze anos. Apesar que a minha vida em Arcoverde foi até a infância. Já na adolescência eu pisei e trabalhei aqui em São Paulo. Depois disso eu me desloquei para o mundo.
Marta  Nessa apresentação da infância de vocês, eu gostaria que vocês descrevessem o cenário de Arcoverde para a gente que não conhece, que nunca foi até lá, até para entender um pouco da origem de vocês.
Clayton  Arcoverde é uma cidade localizada numa depressão, falando geograficamente. [risos]
Lirinha  Sem dúvida, uma grande depressão! [risos]
Clayton  Bom, Arcoverde é cercada por serras e sua arquitetura foi praticamente destruída. Você consegue ver algumas coisas antigas como as casas da rede ferroviária, as casas de pessoas que a colonizaram, mas praticamente já destruíram tudo. Quatro ou cinco prédios ainda você encontra, com aquela arquitetura de quem chegou primeiro.
Emerson  O centro de uma capital é sempre misturado pelo subúrbio, porque a classe operária geralmente é suburbana. Em Arcoverde é a zona rural que compõe muito o dia a dia do centro.
Lirinha  Ela se formou por ser um entroncamento, um trevo.
Max Eluard  É a boca do sertão.
Lirinha  Um lugar de onde você vai para vários outros. Então, nessa estrada existem vários outros caminhos para Arcoverde. É uma cidade que se originou pelo pouso e passagem de almocreves, que era o pessoal que fazia o comércio ambulante em cargas de burro. Arcoverde até hoje guarda essa característica, de uma cidade de pessoas que não se apegam, que não nasceram lá, de pessoas que estão sempre de passagem.
Max Eluard  Talvez por isso a arquitetura não tenha resistido.
Lirinha  Totalmente. Você vê as cidades vizinhas como Pesqueira e Sertania, que têm aquela igrejinha do mesmo jeito. E em Arcoverde, não, são uns caixotes. Cada vez mais horrível.
Emerson  A gente brinca que parece uma “Legolândia”. [risos]
Lirinha  Eu cresci escutando que Arcoverde não tinha cultura. Naquela época era dessa forma; hoje eu tenho até vergonha de usar essa palavra, já que possui outro significado. É assim como a entendo hoje. Mas naquele momento eu caí nessa.

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