gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 14/18

Não sabia se Jim Morrison era uma banda ou um cara

Max Eluard  Só mais uma coisa a respeito de poesia. Jim Morrison passou perto?
Emerson  Aí, aí, aí.

Lirinha  Vou lhe contar uma história. [risos] Desde os 9 anos eu decoro poesia. Na verdade, tudo surgiu da facilidade que eu tenho em decorar. Os meus tios viviam muito com os cantadores de viola e eles tinham muitos livros. Eu decorava e começava a recitar. Aquele menininho… Era aquela coisa, um menino. Eu estava com 12 anos de idade, comecei a me apresentar profissionalmente, viaja com eles, recitava poesias longas do Patativa do Assaré, que é mais longa que um dia com fome. [risos] Eu tinha essa facilidade. Quando comecei a viver de poesia, vive também uma prisão muito grande. Dos cantadores na minha vida não esqueço de nenhum. Rezo por todos que eu conheci antes de entrar no palco, mas peço força a todos. Mas uma prisão muito grande, vivi numa grande cadeia. Praticamente fui proibido de escutar música estrangeira. Vários motes que surgiam no meio da cantoria eram “Eu não digo que a guitarra seja feia / mas o som da sanfona é mais bonito”, eram motes assim. “Larguem o livro porque não-sei-o-quê / o livro da natureza é melhor”, eram coisas muito ligadas à natureza, e proibindo essa influência estrangeira. Inclusive o rock era um mal. Cresci assim. Quando descobri o teatro, muita coisa se abriu. Quem fez teatro sabe do que estou dizendo. Era um momento de descoberta, muitos preconceitos foram quebrados, como os de homossexualidade e os de drogas. Tive acesso a várias coisas no teatro. Então, o que acontece…
[Nego Henrique e Clayton riem]
Lirinha  Vi logo aí a palhaçada! [risos gerais]
Clayton  “Você é bicha ou faz teatro?” [risos]
Lirinha  Então, no momento desse encontro vivi várias coisas. Comecei a fazer esse espetáculo do Cordel. Um dia estava no Blen Blen, e ao terminar a apresentação, um senhor da revista Bravo! chegou para fazer uma entrevista com a gente. “Você é muito inspirado no Jim Morrison, não?” Eu naquele momento, “Jim Morrison?” Conhecia Jim Morrison, mas não sabia se era uma banda ou um cara. [risos] E minha namorada tinha uma fita de vídeo. “Eu vou lhe mostrar”. Aí, no momento em que vi Jim Morrison realmente entendi por que esse homem tinha falado isso. Ele recitava poesia no meio do espetáculo, tinha uma forte ligação indígena, xamã, aquelas coisas todas. Quando fui a Paris, visitei o túmulo de Jim Morrison. Então, hoje tornou-se uma pessoa presente na minha vida, muito por essas coincidências de influências. “Você tem uma influência de Jim Morrison?” Hoje já aceito bastante, mas quero explicar que eu não o conhecia.
Tacioli  Se a sua semelhança com Jim Morrison fosse unicamente pela poesia, esse jornalista poderia te comparar à Maria Bethânia, que recitava Fernando Pessoa em shows. Ela é reconhecida por sua identidade cênica no palco e por suas intervenções poéticas nos anos 60 e 70. Quando os vi logo tracei esse lance do teatro-poesia-música com a Bethânia, com roteiro de show.
Lirinha  Tem. Não vivi, mas possivelmente exista.

Tags
Cordel do Fogo Encantado
de 18