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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 13/18

Trouxemos os elementos sagrados da tragédia grega para um ambiente popular

Almeida  Vocês chegaram a trazer esse espetáculo que ainda era teatro para São Paulo e Rio?
Clayton  Não.
Lirinha  Aí nesse momento o Gutty ligou e eu e o Clayton fizemos uma reunião. “E aí, bicho, o cara está propondo de irmos para a rua, Carnaval, vamos diminuir as poesias”. E ocorreu essa discussão. Optamos mesmo. “Vamos levar nossa característica direto para o palco. Vamos assumir isso”. Nesse momento a gente contratou técnico de som, iluminação e transportamos todos esses nossos elementos para o palco. Foi uma mudança consciente. Mudou o nome do grupo para a banda, Cordel do Fogo Encantado. E estamos até hoje. Pra gente foi maravilhoso, porque o teatro se encontrava de uma forma elitizada, poucas cadeiras, em um ambiente de introspeção bastante elitizado. Poucas pessoas se sentiam à vontade em ir a um teatro. Não sei se isso continua, não posso falar, estou muito distante do teatro, mas desconfio que sim. Foi maravilhoso podermos trazer os mesmos elementos sagrados da tragédia grega, esse estudo, para um ambiente mais popular, um ambiente de maior abrangência.
Almeida – E em um ambiente em que as pessoas se manifestem, dancem, cantem.
Emerson  As pessoas costumam perguntar se nós abrimos mão do teatro. O que houve, na verdade, foi uma mudança. Não saímos do teatro e passamos a ser só show. Fizemos uma adaptação, mas nessa primeira turnê do primeiro disco, na maioria das capitais do país fizemos shows em teatros. Fizemos no Teatro Rival agora, fizemos SESC Pompéia lançando o disco, Salvador.
Clayton  Fizemos um show agora em que as pessoas começaram a sentar em cima das cadeiras, a balançar e a pular. Depois, ligamos para fazer um show lá de novo, e “Não, não!” [risos] O público acabou tirando as cadeiras.
Almeida – O povo não se comporta no show de vocês. [risos]
Clayton – Começou a ficar meio controlado. No Rival são mesas, os garçons atendem, as pessoas ficam sentadas, e quando é show da gente, como de outros grupos que vão tocar lá, existe essa história da movimentação… Se bem que eu consigo dançar com juízo. [risos]
Nego Henrique  E também depende muito do local. Se for um show com o público em pé, ficar colocando as poesias que o nosso amigo Lirinha recita de 5, 7, 10 minutos vai cansar o público. [risos] Não, com todo o respeito, mas é verdade! [risos]
Seabra  Assunto delicado para a banda! [risos]
Almeida  Lirinha, ele está falando para você ser mais rápido. [risos]
Nego Henrique  Porque sentimos muito o clima do público. Fizemos um show em Ribeirão Pires – eu não sei, nunca recitei poesia na minha vida – mas acho que deve tirar a atenção do cara que recita, diferente quando é coisa do teatro, as pessoas estão ali, prestando atenção.
Almeida  Mais contemplativo.
Nego Henrique  Tem sempre uns teimosos que vão lá para pular. Tô brincando.
Lirinha – Ontem eu disse uma de 12 minutos em Ribeirão Pires, numa festa de rua.
Nego Henrique  Tem show que a gente se preocupa mais em fazer as músicas, não tirando as poesias que já tem ritmo, como o “Sabiá no sertão”, aquela coisa, “Salve o povo Xucuru”, mas essas já tem uma batida, o povo fica se mexendo. Mas quando é só ele, acho que acaba cansando o público. [risos] Mas tem vezes que ele recita duas no meio do show.
Lirinha  O Nego tem razão.
Emerson  A gente não se sente prejudicado, mas às vezes vamos tocar em um teatro e procuramos se movimentar ao máximo, até porque gostamos. Assim, incentivamos o povo a dançar. Daqui a pouco estou fazendo isso, e quando olho as pessoas estão lá, sentadas. [risos]
Nego Henrique  A gente prefere show em pé, em palco.
Clayton  Eu gosto de show em que ficamos perto do povo. Tem teatro que você fica lá no meio da boca de cena. Quero chegar no povo.
Tacioli  Mas rola uma interferência do público na apresentação de vocês?
Seabra  O Nego tem razão ao dizer que se tem que sentir o público.
Lirinha  Não, com certeza, tem uma porrada de poesia na manga. Sinto o público. Eu, por muitas vezes, quis tirar poesia, depois achava interessante colocar. Inclusive, tudo surgiu com essa intenção, Nego tem razão totalmente. Antes eram 40 minutos de poesia. Quando o espetáculo surgiu era poesia. E surgiu a idéia da gente não cansar o público. Tudo nasceu aí. Tá vendo a intenção?
Clayton  Geralmente é comum em um espetáculo de poesia, o cara chegar lá, “Hã hã, boa noite”, recita só ele. É difícil um cara só levar clima… Foi a soma das forças, da música com a poesia.
Lirinha  E ocorreu também a descoberta da música.
Nego Henrique  Vamos mudar de assunto, senão o Lirinha vai pensar que estamos querendo tirar a poesia. [risos]
Emerson  Mas isso só ajudou a gente. Mesmo tocando uma percussão acelerada, e tendo aquela coisa super empolgante, as pessoas de teatro acabam interpretando bem. Nunca as pessoas vieram se queixar que o ritmo que a gente faz é muito acelerado para o ambiente de teatro. Da mesma forma que as pessoas que vão para a rua chegam para a gente e “Poesia não é uma coisa legal pra rua, para nós que estamos em pé”. Sempre circulou pela gente essas duas vertentes sem ter nenhum problema.

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