gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 12/18

É possível que neste segundo disco ocorra uma grande mudança

Max Eluard  Lira, você estava falando de criar qualidade de sensações através da música, e isso torna a música de vocês visual pra cacete. Mas ela ficou visual por conta do teatro ou o teatro surgiu já dessa música-visual que já estava concebida?
Lirinha  A utilização do teatro… A luz, por exemplo, segue o roteiro de cena. Então, grande parte da iluminação do show é determinado pelo ritmo da música. Jathyles Miranda, que vem do teatro, estimula a “provocação de sensações” quando quer passar aquele negócio de fogo, medo, tragédia, de seca. Aquela coisa das cores, das sensações. O espetáculo tem muita intenção de chamar atenção. Ele pode te colocar em um determinado lugar seja através do áudio, seja através da imagem. Claro que existe um desenvolvimento que vem do teatro, do domínio do palco, os passos, a postura, a coisa do olhar, mas o teatro não necessariamente é o que dita hoje nossa postura.
Almeida  Que intenções motivaram o grupo abrir mão do teatro? Foi para vocês se tornarem mais identificáveis, “É música!”, “Vou em um show, não vou a uma coisa meio teatro-música”?
Lirinha  Foi pensado, muito pensado. A gente ainda morava em Arcoverde, não era o nome do grupo, era nome de um espetáculo, Cordel do Fogo Encantado, com 40 minutos de poesia.
Almeida  E que saía em turnê pelo interior?
Lirinha  Saía em turnê. Fizemos uma turnê grande pelo SESC. E durante toda vida nunca parou, nunca teve o apoio da Prefeitura da cidade. Acho que foi a nossa salvação, inclusive.
Clayton  A gente alugava uma veraneio para fazer o show. Eu mesmo fiz a locução de um show numa cidade. Era multimídia, mesmo! [risos] Todo mundo faz alguma coisa, a gente é quem dirige cenário.
Emerson  Fica na mão da gente mesmo, porque sempre montamos um show sem ter uma direção, alguém para dirigir o espetáculo. Fomos nós quem escolhemos as figuras de cenário, que gravamos um disco independente, que tentamos distribuir de forma independente. A gente vem compondo músicas sem a preocupação das músicas serem curtas, sem a preocupação que as músicas sejam hits de rádio.
Tacioli  Mas como isso continua depois de um álbum tão bem sucedido? Criam-se, naturalmente, interesses sobre o grupo, não?
Lirinha  Com certeza.
Tacioli  “Contratem aquele produtor porque ele entende”.
Emerson  Esse disco acabou provando para a gente que conseguimos ser aceitos do jeito que levamos a música.

Capa do disco de estreia do Cordel do Fogo Encantado (2001), produção de Naná Vasconcelos. Foto: reprodução

Lirinha  Agora mesmo a nossa intenção é fazer esse segundo disco sem produtor. O primeiro foi com Naná Vasconcelos, irmãozinho, amigo do coração, e para esse segundo, a gente quer seja sem produtor, porque é possível que ocorra uma modificação muito forte e queremos responder por ela. E se qualquer produtor assumisse esse novo álbum, iriam dizer que ele modificou o som do Cordel do Fogo Encantado. E a gente quer gastar todo o dinheiro que temos para contratar um produtor para contratar técnicos, mas também que a produção saía da cabeça da gente, todos os arranjos. No primeiro disco, o Naná não mexeu em nada, maravilhoso Naná Vasconcelos, vou dizer em todo canto do mundo, respeitou a gente. “Os meninos são e som” [risos] “Eu vou só ajudar aqui” e pronto. Ele foi maravilhoso.
Emerson  Ele teve uma participação como se fosse um integrante, de tocar as músicas com a gente, de chegar e colocar um berimbau nas músicas.
Clayton  De fazer efeitos de trovão, de ventos.
Lirinha  Quando a gente estava no teatro em Arcoverde, recebemos um convite para se apresentar em Recife. Aí, quando estávamos se apresentando em Recife, Gutierrez [n.e. O produtor Antonio Gutierrez, curador do Rec-Beat, festival internacional de música criado e realizado em Recife desde 1995], que era produtor da Mundo Livre S.A., não sei se vocês conhecem, viu e chamou a gente para fazermos uma apresentação no Rec-Beat, que era um festival da rua. Negamos na hora. “Nosso negócio é teatro”. Ele ficou agoniado. Ele não recebia “não”. [risos] Eu também não sabia quem era ele. [risos]
Marta  Como se isso fosse mudar alguma coisa, né?
Clayton  Ele parecia um robozinho, todo de preto, aquela coisa assim, o caro do movimento mangue. Mas a gente já estava com outras idéias, não estava querendo se introduzir em movimento mangue. Na verdade, o movimento mangue foi legal para a gente ouvir, mas não tivemos muito acesso às coisas da região do litoral, pelo menos em Arcoverde.

Tags
Cordel do Fogo Encantado
de 18