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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 11/18

A música do NE não é só a do Luiz Gonzaga e a do Jackson do Pandeiro

Max Eluard  Vocês se assustaram com a boa recepção que tiveram com esse primeiro álbum?
Lirinha  Vem assim desde Arcoverde. Então, estamos meio mal acostumados.
Clayton  A gente não conta decepções, não! [risos]
Nego Henrique  É um susto! Você chegar em uma cidade que você nunca tocou e ficar nos bastidores do palco, dá aquele negócio do coração tocar mais acelerado, você fica andando para um lado para o outro, nervoso. Quando sobe, primeira música, a terceira, a quarta, termina o show, e a recepção do povo foi massa! Só aí ficamos à vontade. E quando voltarmos, estaremos à vontade, mas não tão à vontade, porque vão ter outras pessoas diferentes que não viram aquele primeiro show. Sempre tem esse negócio de medo. E quando fomos para a Europa, pensamos, “Como é que o povo vai entender o que a gente está cantando?” Mas se identificaram muito com a música, com o suingue que a gente já tinha pronto, como o Emerson já falou.
Emerson  E isso incentiva muito a gente, saber que a nossa música tem uma facilidade em ser aceita. Queremos expandir mais isso. Tem muita gente que acha que estamos super satisfeitos com essa trajetória. Estamos satisfeitos, mas temos necessidade de expandir.
Lirinha  A gente sempre está querendo mais coisas.
Clayton  Não é falando de Freud, não, galera, é da situação do trabalho, mesmo.
Lirinha  Eu queria falar duas coisas: uma coisa que Clayton comentou sobre o fato de não termos estudado música. Isso é muito importante falar aqui. Não foi uma opção em não estudar. Na região da gente, não tínhamos a opção. Hoje talvez a gente tenha na estética uma coisa “não-dinâmica”, “não-estudo de música”, mas naquele momento foi uma coisa da situação em que vivíamos, de fazer música. O acesso ao estudo era difícil. Então, tem essa característica. Outra interessante sobre o que você estava falando. Existe uma música que se chama “Antes dos mouros” e ela resume bem esse papo que estamos tendo aqui. Em todos os debates que tinham falavam que a nossa música, a nossa cultura, a cultura nordestina, tinha vindo dos mouros. Beleza! Sanfona, viola, rabeca, a poesia, tudo tem sua origem árabe. Daí a gente começou a brincar, “E antes dos mouros?” E o som antes dos mouros? Foi nesse momento em que Naná estava com a gente gravando o disco.
Seabra  Quando ele cruzou com vocês?
Lirinha  Foi aqui em São Paulo. Já eu te explico. Aí Naná disse “Eu também sou antes dos mouros!” Êta! [risos] Era uma coisa assim: “Antes dos mouros, o som / O som de tudo que passou por lá / O som de tudo que passou aqui / O som que vem / Quem viver, verá / Os trovões já batucavam / Vanguardistas batucadas / O vento já produzia / Árias de ar e poeira / O mar nunca atrasará / O compasso do batuque / Antes dos peitos dos mouros / Antes dos gritos de gente / Antes até da saudade que viajou além-mar / Do banzo dos africanos / Do toré no Mato Verde / O fogo com seus estalos já fazia o som”. A idéia dessa poesia e disso tudo era mais ou menos: antes de tudo existia a música. A música existia. A gente sabe que o ganzá vem da tentativa de imitar a chuva, a gente sabe que a arte mímesis é imitação, a gente sabe que tem a imitação dos sons da natureza. Antes de tudo existia a música. Eu acho muito ruim para qualquer desenvolvimento musical e artístico que existam mestres que tenham difundido a música daquela região. Respeito muito Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, mas a música do Nordeste não é só a do Luiz Gonzaga e a do Jackson do Pandeiro. Tem uma música antes dos mouros, até. Música do som, de aquilo tudo que acontecia. A intenção da gente é uma música antes dos mouros, é uma música que imita os trovões, que um gonguê imite um trovão, que um ganzá imite uma chuva, que aconteçam coisas assim. Então, partindo dessas sensações, é possível que o Cordel provoque nas suas apresentações sentimentos universais. A gente fala muito em medo, desejo, amor, saudade, coisas que em todo lugar existem. Tem uma música nova que se chama “A matadeira”, que vai estar no segundo disco. É sobre aquele canhão dos canhões, da Alemanha [n.e. Canhão Withworth 32].
Seabra  Sobre o canhão usado em Canudos?
Lirinha  Usado em Canudos. Tem até um curta do Jorge Furtado, que eu não conhecia, chamado A matadeira. [risos] Então, com essa música nova, “A matadeira”, a gente tinha intenção de passar uma agonia. O lugar de Canudos era o Alto da Favela. A palavra favela vem de Canudos, das reportagens de Euclides da Cunha. Favela tinha dois significados: tanto o nome da região, como de uma vegetação que é muito emaranhada, vegetação de favela. Então, logo após Canudos, surgiram as primeiras favelas. E muito parecido com Canudos, sem linha reta.
Clayton  Sem ruas programadas, becos.
Lirinha  Então, essa música nova diz assim: “A matadeira vem chegando / Lá no Alto da Favela / No balanço da Justiça / Do seu fundidor e pai / Salitre, pólvora, enxofre, chumbo / O banquete da terra / O teatro do céu / O banquete da terra / O teatro do céu / Olha aí, quem vem lá? / Caravana do velho soldado / E o que traz no seu peito? / Juízo da vida e da morte / E o que traz na cabeça? / A matadeira / E o que veio falar? / Fogo”. E quando a gente começou a fazer essa música, dizíamos assim: “É uma música agoniada”. Aí tem uns tiros, prrrrrrá, prrrrrrá. Começar bonito. E as pessoas chegavam para a gente e diziam “Eu não gostei dessa música, não! Ela é muito agoniada!” [risos] Pronto.
Clayton  Conseguimos.
Lirinha  “Ela dá um negócio de morte. Eu não gosto dessa energia.”

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