gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 9/18

Estamos na fase mais difícil que é a da síndrome do segundo disco

Max Eluard  Deu para perceber que vocês pensam muito no trabalho de vocês, mas pensam individualmente ou existe essa conversa entre vocês? “O que estamos fazendo?”, “O que está acontecendo com o nosso som?”
Clayton  A partir do momento em que estivermos juntos, estaremos discutindo a nossa vida.
Lirinha  Estamos descobrindo inclusive este momento, que está sendo de muita conversa, porque provavelmente sofreremos muitas críticas nesse segundo disco. Vem um disco em que esses ritmos não são mais tão apontados.
Max Eluard  Já existem outros elementos incorporados ali.
Emerson  Não foi uma coisa que “Vamos abrir mão do Nordeste e trabalhar com outra tendência musical de outra região do país”. Começamos a desenvolver uma coisa que o nosso próprio instinto nos indicou. O grupo é um grupo que faz com que você não siga um pensamento padrão, uma música padrão. Cada um vai desenvolvendo, como o Lirinha disse.
Lirinha  A própria luz do espetáculo está descobrindo isso. A luz do espetáculo está trabalhando com gambiarras, lamparinas, candeeiros, e o iluminador vem de teatro. Ele se sentia muito preso em outros grupos e a gente começou a incentivá-lo, dizendo “Faça o que você quiser”, “Erre”. O grupo preza muito o erro! A gente precisa muito errar…
Clayton  Para poder acertar.
Almeida  O erro que você diz é arriscar?
Marta  É a experimentação?
Lirinha  Estamos numa fase em que a música está muito verde. Estamos morrendo de medo de estrear. Cada um incentiva o outro a estrear e a errar nesse momento.
Nego Henrique  Tirar do estúdio e pôr no palco.
Lirinha – Vai ter que se errar em algum momento.
Almeida  Vocês já gravaram o segundo disco?
Lirinha  Não. Estamos, justamente, na fase mais difícil que é a da síndrome do segundo disco. [risos]
Max Eluard  A vigilância vai ser braba, né?
Lirinha –
 A fórmula poderia ser repetida, tranqüilamente.
Almeida  Mas há um medo das referências agora serem mais reconhecíveis, “Ah! Isso aqui é de não-sei-de-onde”, “Essa guitarra é de não-sei-quem”, e o primeiro as pessoas viram muito como uma novidade?
Emerson  Na minha visão, vai ser o oposto, porque existem os elementos que fizeram parte de nosso cotidiano e que se traduziu no primeiro disco. E para esse segundo, a gente viajou muito fazendo shows, e em cada viagem comprei os instrumentos que eu via e tentei desenvolver um toque nesses instrumentos. Vai acontecer o inverso.
Clayton  Tanto é que a gente não tem uma formação acadêmica de música. Ninguém aqui estudou, mas tem uma percepção muito legal em relação a plágios e cópias. Tenho um cuidado muito grande em não executar certos timbres que lembrem uma outra execução. Como também consigo na mesma semana ver Heraldo do Monte e Lanny Gordin, e absorver informações dos dois sem ter uma limitação, porque se eu pegar uma guitarra, vou estar na sobra de alguém. A busca da inventividade é uma das coisas que a gente quer muito.
Lirinha  Não é uma questão de conseguir mais coisas que outros grupos. São intenções diferentes. Tem bandas que têm objetivo de resgate, de releitura. Isso não diminui, não existe nenhuma régua que meça e que indique que a gente é maior ou menor que eles. A intenção do Cordel do Fogo Encantado é de criação, de tentar trazer da cabeça, sons, ritmos, novas batidas, embora a gente saiba que estaremos repetindo coisas já existentes, mas a intenção da gente é essa. Não estamos levantando uma bandeira de originalidade, pelo menos no meu caso, não levanto uma idéia de que a gente seja superior por isso, por esse pensamento. É apenas um pensamento. Tem grupos como o Mestre Ambrósio que tem uma relação muito boa com a gente, e que em vários momentos faz comentários a respeito dessa nossa intenção. “Vocês estão batendo muito forte!” São visões e pensamentos que a gente conversa e diz “A nossa intenção é essa mesma”. “Tem influência punk na música da gente, de hardcore. Existe a intenção de criação, de experimentalismo. Deixe-nos seguir isso aí, porque talvez nós nos daremos bem melhor assim do que fazendo releitura, resgate, não-sei-o-quê. A nossa pesquisa será muito falha. Todo mundo é muito preguiçoso para isso.”

Tags
Cordel do Fogo Encantado
de 18