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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 0/18

Antes e depois dos mouros

Era a primeira entrevista que faríamos com músicos da nossa idade, a maioria, na verdade, mais jovem. Apesar de conhecer o CD, ainda não os tinha visto tocar. Acidentalmente, na noite anterior, vi o grupo em um canal a cabo, fazendo o maior barulho em uma apresentação ao vivo. “A TV prejudica nosso som”, diria Lirinha mais tarde. A mim pareceu tudo certo. Lirinha proferia seus versos com a ajuda das mãos, a banda estava na mesma sintonia e um bumba-meu-boi de olhos alumiados dançava no palco. “Programas de TV não têm microfones”, completou em seguida. E eu que estava me deliciando, ali, diante da televisão, vibrando com aquele Antônio Conselheiro sem barbas e seu conselho percussivo…

Cybercafé Na Rede, bairro de Perdizes. Na falta de uma indicação daqueles moços de Arcoverde e Recife, pensamos logo no espaço de Mariana Nogueira, antiga amiga de Ribeirão. O local estava prestes a ser tomado pela presença “vulgar e silvestre” do Cordel do Fogo Encantado. O percussionista Rafa Almeida não pôde ir e a conversa boa, cheia de histórias do interior de Pernambuco, de teatro cantado, de shows cênicos, aconteceu com o vocalista Lirinha, o violonista Clayton e os percussionistas Emerson e Nego Henrique. Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro também foram evocados, mas antes deles os mouros e antes o batuque dos trovões e as árias de ar e de poeira.

O messias e seu conselho eram outros no semicírculo que se formou entre almofadas, sofás e microfones. “Um jornalista me perguntou se eu conhecia Jim Morrison. Só o conheci depois dele falar”. Acho que fiquei inebriado com tantos versos declamados, uns do início do século passado, outros do próprio Cordel, copos de cerveja e risadas soltas no sotaque musical de Pernambuco e um apetite tão parecido com o nosso, defensores da camisa Gafieiras.

Rapaziada do interior, mas inquieta. O segundo disco terá produção própria, que é para ninguém culpar produtor algum por uma virada em sua música. Depois de três horas de vaivém na história, de Recife a Paris, de São Paulo a Arcoverde, algumas saideiras e, naquele momento, respostas que não esperavam a próxima pergunta, cada um pegou seu caminho. Cada um pro seu norte. Na rua, alguns bradavam versos que ainda se ouviam ao longe e eram levados pelo vento.

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