gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 6/29

Levantar da cadeira e virar o bolachão era uma interação

Tacioli – Clemente, você falou uma coisa bacana: você e o Douglas pegavam os discos e ouviam. Havia esse deslumbre com as novidades. Parece-me que nos anos 70 e 80 ouvir música era curtir um som com os amigos. Hoje, curtir um som é algo individualizado.
Clemente – Até pensei num negócio: vou dar uma festa e falar para cada um levar o seu iPod. [ risos ] E cada um ouve o que quiser. Será a festa mais louca, porque cada um vai dançar de um jeito. Pô, cada um com a sua trilha sonora. É chato isso, né, cara? Havia uma coisa de você dividir, sentar com os amigos e “Ouçam isso comigo!”, de se discutir uma música; cada um tinha uma impressão. Isso era legal e é uma perda dos tempos modernos. E o mais legal era que sempre alguém tinha algo pra falar da letra, “Pô, não tinha pensado nisso!” [ ri ], “Por que essa capa?!”.
Fernando Ângulo – O formato do disco em vinil ajudava nessa socialização?
Clemente – Ah, sim! Só o fato de você ter de levantar da cadeira para virar o bolachão [ ri ] já era uma interação. Não sou muito saudosista, não; acho que o CD também cumpre o seu papel, como um dia vão inventar uma pílula que a gente vai tomar e ouvir um som, mas o bolachão era legal. Era mais fácil você trabalhar uma arte no bolachão. Como o disco do Rolling Stones que tinha um zíper, ou do Alice Cooper que vinha uma calcinha, havia uns que você abria e era um puta poster… Tinha um do Sha Na Na ao vivo, aquilo era lindo! Abria o disco e tinha os 25 caras da banda, que era gigante. Estavam todos. “Pô, que banda! É a minha preferida!” Mas eu sinto falta dessa troca. Cada um chegava com o seu disco. Como os discos eram raros, às vezes o cara era conhecido pelo disco que tinha. “Pô, olhe lá o Zé que tem o PurpleMade in Japan!” “Oh! O cara tem?!” E o cara era recebido… Até mesmo quando começou o punk havia umas bandas raras, como o Stiff Little Fingers. Há uma perda com esse lance da música cada vez mais individualizada…

Tags
Clemente
Inocentes
Plebe Rude
Punk
de 29