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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 5/29

Virei um rocker bebedor de vinho

Tacioli – E o que motivou seu primeiro contato com um instrumento musical?
Clemente – Na verdade, quando eu conheci o Douglas – ele tinha 14 e eu 13 -, ele já vivia numa cena rocker mais ampla. Eu vivia com a molecada do meu bairro, do conjunto habitacional. E a irmã do Douglas Viscaíno, que era mais velha, namorava com um cara que, por coincidência, morava no final da minha rua. Ele também era bem mais velho que a gente, tinha uns vinte e poucos anos. E esse cara, o Valtinho, tinha uma coleção gigantesca de discos, tinha uma grana, não trabalhava, não fazia nada, ficava só colecionando com discos; acho que era DJ na época da discoteca. Ele tinha uma porrada de disco raro, coisa que pouca gente tinha. Hoje em dia a gente baixa da internet, é tudo mais fácil. Ele tinha Stooges, Cactus, umas coisas bem casca grossa mesmo. E esses discos todos ficavam na casa do Douglas, porque o cara namorava com a irmão dele. Quando eles estavam namorando, ouviam os discos; quando eles não estavam lá, a molecada fazia a festa. Então, todo sábado eu ia pra lá e ficávamos ouvindo disco, eu e o Douglas. Ouvindo MC5, “Olha que legal!”. “Você sabe o que é isso?!” “Não!” Conhecia Led Zepellin, Kiss, aquela coisa normal da garotada. E aí a gente teve contato com um mundo de música. E eu saía do conjunto habitacional e ia para a Vila Carolina, Vila Palmeira, Freguesia, Pirituba. Saí do Bairro do Limão e comecei ir mais para lá. E comecei a conhecer rockers, as gangues. Havia uma chamada “Os Marinheiros”. Quando eu morava no conjunto habitacional tinha os bailes, com fitas-cassetes e vinil, ou em outros bairros, e os caras passavam pelo meu bairro. Eram uns 50 caras bebendo vinho na rua. “Nossa, cara, o que é isso?! Vou ser assim!” [ risos ] E todos com aquela jaqueta de marinheiro do Exército Americano, aquela jaqueta preta de inverno. Tinha uma loja no centro da cidade, o Lixão, que vendia uniformes de soldados americanos no Vietnã. E os caras iam todos bonitinhos; às vezes tinha um furo. [ risos ] E todo mundo comprava lá. As jaquetas do Exército Brasileiro você não podia usar. Apanhava nas ruas; os milicos batiam e tomavam (a jaqueta). E eles todos tinham a jaqueta de marinheiro. Era um bando de marinheiro passando. E aí comecei a tomar contato com esse povo. E quando viram aqueles dois pivetes na escola – porque eles também estavam na escola – e nos bailes, falaram “Vocês conhecem Stooges?!”. [ com voz fina ] “Sim, por quê?” E aí aceitaram a gente. Eles não acreditavam na gente que falava dos discos e das músicas como se fosse a coisa mais natural do mundo. E a gente mesmo não sabia que era tão raro assim. Virei um rocker bebedor de vinho largado no mundo.
Tacioli – E como era a relação com a sua casa a partir do momento em que começou a conviver com isso?
Clemente – Ah, todo mundo ia em casa. Eu ia na casa do Douglas; o Douglas ia em casa, como todos os moleques. Aí o Douglas começou tocar guitarra e comecei a aprender com ele.
Tacioli – Mas bronca da família não teve?
Clemente – Não. Não teve encheção de saco. Enchei o saco pelas calças todas rasgadas, “Nunca mais vou costurar suas calças”, “Essa calça eu não lavo!”. “Tudo bem!” [ risos ] E gostava de andar com a calça rasgada, toda remendada… Era horrível, mas era rock’n’roll. Não havia nada “Não seja assim, não seja assado”. Nunca encheu o saco.
Tacioli – Sua mãe era dona de casa?
Clemente – Dona de casa. E o meu pai não vivia em casa, então, era só alegria. Era uma coisa de todos irem na casa do outro. As mães conheciam todos. Em casa chegavam o Douglas, Marcelino… e todos os caras que depois montaram banda. Galinha, Cavalo, Callegari… Comiam e passavam o dia lá. “Vamos para o som!”, saía e voltava de madrugada. “Pô, onde você estava?”, mas sabia com quem a gente estava. Era toda uma comunidade de bairro.

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