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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 3/29

Eu queria ser o Chuck Berry!

Dafne – E o que chamava mais atenção no rock pra você: o som ou a atitude?
Clemente – Era tudo que o envolvia. Na verdade, eu gostava muito do rock in roll do anos 50, James Dean, aquela coisa toda, né? Eu gostava do Chuck Berry pra caramba. Na verdade, quando comecei a tocar eu queria ser o Chuck Berry.
Tacioli – E de que maneira você via essa turma?
Clemente – Toda a garotada via, era uma herança da Jovem Guarda. A gente cresceu ouvindo o rock da Jovem Guarda. Então, na famosa Sessão da Tarde tinha a Turma da Praia com Eric von Zipper [ n.e. líder da gangue de motoqueiros, interpretado por Harvey Lembeck, da séries de filmes A praia dos biquinis, Folias na praia e mais outros quatro filmes, protagonizados por Frankie Avalon e Annette Funicello ], depois os filmes do James Dean que passava de madrugada… Todo mundo queria ser James Dean. Eu queria ser o Chuck Berry. Little Richard, não! [ risos ] Havia aquela coisa do rock and roll, dos anos 50, principalmente. E na escola, lembro quando conheci o Douglas, que depois fundou comigo o Restos de Nada, que foi umas das primeiras bandas punks de São Paulo. Eu o conheci na escola. A gente se identificou em 76, porque eu estava com a famosa bolsa de couro comprada na feira hippie da Praça da República [ risos ]. Eu entrei na sala de aula com uma calça boca-de-sino gigantesca, um tamanco de madeira, um óculos escuro redondo, cabelão, bolsa a tiracolo e uma daquelas camisetas curtinhas, listrada, baby look. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele também tinha uma camiseta. “Você é roqueiro?” “Oh, sim, eu sou.” “Oh, que legal. Oi, amigo.” “Oi, amigo.” [ risos ] Eu lembro que ele foi assistir o Tommy [ n.e. filme de 1975 dirigido por Ken Russell baseado na ópera rock homônima do The Who ] no cinema e eu não podia entrar porque eu tinha 14 e ele 16. Ele foi ver e eu “Ah, queria ver o Tommy!”. Não, ele tinha 15, o filho-da-puta falsificou a carteira de identidade. Ele nasceu exatamente um ano depois de mim. Nasceu no mesmo dia em que nasci, 12 de maio, exatamente um ano antes. Era a vida de um rocker. Toda a molecada era assim. Havia os caretas, é claro.

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