gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 2/29

Confundiam meu pai com o Lupicínio Rodrigues

Tacioli – Qual era a profissão de seu pai?
Clemente – Meu pai teve loja, mas o lance dele era estar na rua; ele era comerciante. No começo ele era o famoso ambulante, que nem o Silvio Santos. Depois abriu uma loja; teve umas duas lojas grandes.
Tacioli – Loja do quê?
Clemente – Ah, de tudo, guarda-chuva, essas coisas.
Dafne – No bairro mesmo?
Clemente – Não, no Centrão (de São Paulo). Meu pai vivia no Centrão. Ele nunca parava na loja, porque vivia atrás da mulherada, né? [ risos ] Meu pai era uma figura. Tinha carteira de imprensa pra entrar de graça em tudo quanto era lugar. O cara cursou até o segundo ano primário, né? Aí ele viajava de avião pra Porto Alegre, uma coisa assim, e os caras o confundiam com o Lupicínio Rodrigues [ n.e. 1914-1974 | Cantor e compositor gaúcho autor de clássicos como “Nervos de aço”, “Felicidade”, “Esses moços” e “Se acaso você chegasse” ]. Ele ficava quietinho. “Senhor, venha na área vip!” “Humn? Sim!” Tinha um grupo regional em que tocava cavaquinho.
Dafne – Ele tocava cavaquinho?
Clemente – Tocava. Meu pai era uma figura, mas não parava em casa…
Dafne – Mas tocava choro?
Clemente – Ah, cara, nem sei o que ele tocava, porque eu não ia. Só vi as fotos dele com o grupinho. Acho que tocava choro, samba, seresta. Nunca vi esse grupo, somente a foto. [ riso ] Eu era o mais novo dos três (filhos).
Tacioli – Eram três filhos?
Clemente – É, naquela época, sim. Aí quando a gente mudou pro Limão, nasceram as duas mais novas.
Tacioli – Somente você de homem, Clemente?
Clemente – Só eu de homem e do meio. Aí tem o meu primo que foi criado com a gente. Um dia, com aquela coisa de baiano, o meu tio chegou na casa da minha mãe e falou: “Olha, eu vou pra Bahia. Você pode ficar com ele só um pouco? Volto daqui uns dois, três meses”. Até hoje ele não voltou. [ risos ] Ele chamava o meu pai de pai e o pai dele de tio-pai. E tenho dois meios-irmãos: um menino que fui conhecer quando tinha 28 anos e uma menina, lá do Rio Grande do Sul, quando meu pai ia pra lá disfarçado de Lupicínio Rodrigues. [ risos ] Meu pai era meio danado. Mas a família era grande.
Tacioli – E que tipo de música você ouvia na sua casa?
Clemente – Cara, ouvia muita música black, ouvia muito samba, ouvia samba-rock pra caramba. Aquela coisa no começo, minhas irmãs. Eu lembro até de um cara que namorava a minha irmã, a Márcia. O nome do cara era Didi. O cara era um black e ficava ensinando samba-rock pra elas. E eu lá, pivete, só olhando, o cara saindo de carro, todo de branco, aquele sapatão plataforma. A garagem do carro era daquelas descidinhas, sabe? Imagina o cara, “Uuh!”, escorregou e levantou, aquele bundão todo preto. [ risos ] Cara, eu rolava de rir. Mas o Didi era figura. Só ouvia isso aí. Mas a gente vivia numa época, no começo da década de 70, em que todo mundo ouvia rock. Ouvia-se muito Jackson 5. E a rádio tocava rock, tocava Black Sabbath, tocava Sweet, e a gente ouvia isso. Acho que com 11 anos eu ganhei o meu primeiro disco do Focus. “Porra, Focus! Legal!” Aí fui conhecer o Black Sabbath pelos amigos do bairro, Jimi Hendrix… E havia aquele programa na TV Globo, o Sábado Som, que o Nelson Motta apresentava. E havia o programa do Big John, eu não lembro o nome do programa dele, mas lembro até hoje ele mostrando o disco do Alice Cooper, um importado, que vinha com a calcinha dentro, e ele tirando. “Ê, calcinha!” Era rock and roll. E na escola todo mundo era rocker, não existia o pop propriamente dito. O rock era pop, mas não havia essa diferença de uma Madonna para um Metallica; todo mundo era mais ou menos a mesma coisa. Comecei a fazer rock por causa do Chuck Berry.
Tacioli – Isso com que idade?
Clemente – Eu tinha 11, 12 anos.
Tacioli – Mas a música já chamava sua atenção desse jeito?
Clemente – Ah, sim, né?! Havia os bailinhos e todo mundo ia dançar. “Nossa, que barulheira!”

Tags
Clemente
Inocentes
Plebe Rude
Punk
de 29