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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 28/29

O adolescente hoje tem muita informação, mas superficial

Tacioli – Você falou bastante dessa literatura de revista dos anos 70, 80. Tinha a Pop, SomTrês… E hoje, você acha que existe um público que consome as publicações?
Clemente –Sim. Tanto é que essa Rolling Stone nova é muito boa, a Bizz, que voltou com o Ricardo Alexandre, está do caralho, saca? [ n.e. A revista deixou de circular em 2007 ] Voltou de novo a ter literatura.
Tacioli – Não é uma ilusão, então?
Clemente – Não.
Tacioli – Existe um público que pode consumir?
Clemente – Sim.
Tacioli – Mesmo hoje com um acesso irrestrito à música…?
Clemente – Hoje é muito fácil com esse negócio de internet, MP3… Eu ouço falar de uma banda hoje, entro num site, baixo, ouço e falo “É uma bosta! É legal!”. Hoje é muito fácil.
Almeida – Qual você acha que é o papel dessas revistas?
Clemente – Cara, o adolescente hoje tem muita informação, mas superficial. Falta gente que dê informação. Porque na internet tem tudo, é um monte de coisa; você acha que ele pára pra olhar alguma coisa? Você pára pra ler quando pega uma revista e vai ao banheiro, senta e lê. Então, as revistas cumprem esse papel. Tanto cumprem como voltaram porque havia espaço pra isso. Há muita música e pouca informação, pouco conteúdo.
Almeida – E elas estão cumprindo bem esse papel?
Clemente – Ah, pelo menos as edições que li, sim. Li a primeira da Rolling Stone e achei muito boa, cara. E tem matérias não somente de música propriamente dita, mas que giram em torno dela. Matéria do PCC muito boa. Isso é legal, precisa disso. Fanzine é muito ruim, tem muita gente ruim escrevendo fanzine, muito tosco. E acho que essas duas revistas são boas referências. Não tinha mais revista pra ler.
Tacioli – E as revistas de rádio? [ risos ]
Clemente – Nunca, nem aquelas entrevistas da MTV: “Pô, quantos discos você vendeu? E onde você tocou? Quantas turnês? E aí o que aconteceu de interessante no camarim?”. Meu, não dá.
Almeida – A 89 tinha uma revista também, né?
Clemente – Tinha.
Almeida – Você curtia, Clemente?
Clemente – Cara, não era uma revista que eu acompanhava, de comprar… Mas eu cheguei a fazer uma matéria bem legal lá. Legal, mas meio triste, do moleque que tinha perdido o braço por causa do trem. Os skin(heads) o forçaram a pular do trem. Meu, fiquei tão mal quando vi o moleque, tão mal… O moleque tinha cara de nenê, 15 anos. “Meu filho, um nenê!” E perdeu o braço até aqui, saca? Eu falei “Meu, isso não se faz!”. Fiquei muito chateado. E o moleque gente boa pra caralho. Tocava gaita e fazia um som. Aí dei um disco do Inocentes pra ele, uma camiseta. E eu até queria retomar o contato com o moleque, mas a revista acabou, não me lembro dos jornalistas que fizeram a matéria, e perdi o contato… Mas um moleque muito dez, uma puta energia, uma puta lição de vida. Eu cheguei, olhei, fiquei chateado; quando saí de lá, saí animado, porque o moleque era bem legal.

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