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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 26/29

O Bivar vai pra Patagônia de ônibus com 70 anos

Tacioli – Clemente, estamos terminando; já são mais de duas horas de entrevista…
Clemente – Caralho!
Tacioli – Mais alguma questão?
Almeida – Da parte que eu peguei até aqui foi ótima. [ risos ]
Tacioli – Tem alguma coisa que te dá medo hoje, você que foi um cara de gangue?
Clemente – Hoje em dia? Da mesma dor nas costas… [ risos ] Horrível! O nervo ciático doendo é uma bosta. Nesse fim de semana fiz três shows num dia. Aliás, um na sexta, com a Plebe, às nove horas, no SESC Pompéia; aí no sábado fiz um com o Inocentes, às oito horas; aí saí de lá, fiz com a Plebe, às nove e pouco no SESC Pompéia. Depois fiz com a Plebe de novo no Casebre, de madrugada. E o show é físico, você pula, corre, vai lá, aquela coisa. Aí o André, baixista da Plebe, no segundo show foi pegar não-sei-o-quê na geladeira. Ele fez assim [ encena o André abaixando-se ] e quando voltou: “Ah, não consigo mexer. Estou fudido!” É o único problema da velhice, que é uma bosta. [ risos ] Dá medo disso acontecer no palco e travar como o baixista do Morphine [ n.e. Mark Sandman, que também era vocalista da banda, teve um ataque cardíaco fulminante em 1999 durante um show na Itália ].
Tacioli – E a sua rotina hoje com a família como é?
Clemente – Cara, é cuidar dos gêmeos; tenho filhos gêmeos de cinco anos.
Tacioli – Você tem quantos filhos?
Clemente – Eu tenho três filhos. Tenho a mais velha, Mariana, de 19, que gosta de punk rock 77 também. Tenho de levá-la a todos shows. Teve show do Rezillos, uma banda da minha geração… Vai ela e as amiguinhas assistir ao show, tirar foto… [ ri ]
Dafne – É engraçado ver a sua filha curtindo a mesma coisa que você com esse tempo todo de experiência?
Clemente – É engraçado e é uma prova de que esse começo do punk é muito atual. Se você ouvir Strokes, há ecos daquele…
Tacioli – Você gosta de Strokes?
Clemente – Gosto. Franz Ferdinand é legal; o show é muito bom. Quando tive loja na Galeria é que comecei a (reconhecer outros sons). Eu tinha aquela coisa de velho: “O som da minha época é mais legal!”. Aí os molequinhos iam lá e eu ficava: “Na minha época…”. Uma hora parei pra pensar e falei: “Meu, como vou vender pra essa molecada se eu não entendo o que eles curtem? [ risos ] Tenho que ouvir a coisa sem um preconceito já estabelecido: Isso é uma bosta!.” Eu tinha ouvido a segunda geração do ska. E estava na terceira onda de ska. Aí fui ouvir as bandas… E quando comecei ouvir as coisas sem preconceito… “Porra, são bandas legais”. Uma vez o roadie nosso, o Tubarão: “Porra, o que vocês ouviam quando eram pivetes?”. “A gente ouvia o MC5, puta banda, não-sei-o-quê.” “Porra, essa banda deve ser punk…” Aí peguei e o pus o MC5 pra tocar. O cara começa: [ berra com voz grave ] “Mother fucker!” E canta a música toda em falsete. Pensei: “Pô, meu, do caralho esse cara cantando fininho! Pensei que o cara cantar [ faz voz gutural ] …” [ ri ] A referência é outra. Na minha adolescência isso era do caralho. É como você falar mal do emo hoje pra molecada. Tem uma situação que envolve aquele moleque que ouve aquele som e que vai tocá-lo naquele momento. A adolescência é um momento em que você se constrói. Então, o que pra mim tocava na minha adolescência, (pra ele) não ia tocar de primeira. Falei: “Meu, realmente isso me marcou porque fez parte de uma época boa da minha vida. E pra ele não significa nada porque só mudará de opinião quando ouvir isso com mais calma, como eu também não gostava do London calling [ n.e. disco do Clash de 1979] quando tinha 16 anos… E hoje ouço e falo que esse é o melhor disco de punk.” Tudo tem o seu tempo…
Almeida – Clemente, você pensa como estará daqui dez anos?
Clemente – Velho, né?! [ risos ]
Almeida – Com mais dor nas costas.
Clemente – Com mais dor nas costas. É uma bosta esse negócio. O que me anima é o (Antônio) Bivar [ n.e. escritor e dramaturgo paulistano nascido em 1939 ]. O cara tem 66, 67 anos. “Clemente, essa é a minha namorada. A gente vai fazer uma viagem de ônibus pra Patagônia, porque vou escrever um livro…” Nossa, o cara vai pra Patagônia de ônibus com 70 anos! [ ri ] “Tchau, Bivar!” Isso anima. O cara é um moleque. Está escrevendo, vai aos shows punks, conhece toda a molecada; fez a Ópera Punk em Santo André. Isso é do caralho! Quando conheci o Bivar já tinha 42. E está aí firme e forte.

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