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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 25/29

O emo poderia ter qualidade

Tacioli – O peso das letras é muito importante pra você?
Clemente – Ah, sim, é.
Tacioli – Mas você tem esse barato de uma banda que musicalmente é legal, mas as letras nem tanto?
Clemente – Sim. Às vezes as letras são assobiáveis, mas doem. Fui tocar com o Cascadura. O disco deles é maravilhoso, um dos melhores discos do ano. Os meninos do Ludovic, que eu trouxe aqui, são muito legais. O texto do moleque é muito legal, a banda é intensa. O emo poderia ter qualidade. O Ludovic mostra isso e sem repetir fórmulas. Eles construíram um som baseado num pós-punk, mas com influência do mundo, que é uma coisa muito diferente. É a mesma coisa que o vocalista do Joy Division cantando no Nirvana. [ ri ]
Dafne – O repertório da banda ou do artista é determinante pro som deles.
Clemente – Sim.
Dafne – (…) Pro som ser melhor.
Clemente – E a banda no palco, porque a banda se vende ali. Eu tinha visto um show do Cascadura, acho que foi o primeiro com essa formação nova, ouvi o disco e falei: “O disco é tão bom, mas a banda não representa o disco no palco”. E nesse último show foi do caralho, cara! Acho porque era o primeiro show, a banda não estava azeitada. Aí, passaram-se uns meses, fui tocar com eles e fiquei impressionado. O show doAstronautas é do caralho! O André me mandou o disco e é muito bom. Em 1980 tinha um cinema na Brigadeiro Faria Lima que chamava Cine Rock Show. Fui ver o filme do Clash, o Rude Boy [ n.e. dirigido por Jack Hazan e David Mingay, 1980 ], e o filme doDevo, que não sei nome em inglês, mas a tradução em português é Os homens que criaram a música [ n.e. dirigido por Mark Mothersbaugh e Chuck Statler, 1981 ]. E é o Devo com guitarra, e não essa fase com que estourou a new wave, que tem aquela música “tititi”. Devo na primeira fase com guitarra. Eu vi esses dois filmes e falei: “Meu, é isso aí que eu quero ser. Quero ser como essas duas bandas, o Clash e o Devo!”. Eram muito fodas no palco. E eu vi um show do Astronautas em Brasília, no Porão do Rock. Falei pro André: “Porra, veio a imagem do Devo”, que é onde eles mamam, mas sem fazer a mesma coisa; usando as mesmas referências, mas fazendo um som diferente. Então, aqueles macacões, aquelas máscaras… “Nossa, do caralho!” Lembrou o Devo naquele começo de setenta e pouco. A cena hoje tem muita banda boa, e não precisa ser punk pra ser boa.

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