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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 24/29

É legal envelhecer e não ser saudosista

Tacioli – Clemente, é duro envelhecer?
Clemente – Não, é bom. Hoje as coisas são mais fáceis.
Tacioli – O que é mais fácil hoje?
Clemente – Pô, é mais fácil entrar no palco, é mais fácil fazer um show, é mais fácil fazer uma entrevista, é mais fácil chegar a um resultado que você quer, saca, é mais legal. Quando você é moleque, você é muito perdido. A única coisa ruim é que fica mais difícil escrever, porque você já escreveu tanta coisa, já fez tanta música… Fui tocar com a Plebe agora no SESC Pompéia e aí o pessoal do Banzé me chamou: “Toca uma música com a gente.” Falei: “Vamos embora!”. E fui tocar uma música com eles. Aí me passaram a música e falei: “Puta, cara, engraçado, eu nunca faria algo novo com esses acordes”. Mas com eles soa como se fosse uma coisa diferente porque arranjaram uma nova fórmula de utilizar aqueles mesmos três acordes, mas pra mim fica “Porra, de novo?”. E eu já usei em várias músicas. Estou numa crise de criação. Não gosto de nada. Isso é chato. Mas envelhecer faz parte da vida. O legal seria saber tudo que eu sei hoje com 25 anos. Seria do caralho. [ ri ] Mas, na boa, é legal envelhecer e não ser saudosista, pelo contrário, acho que tanto no Inocentes como na Plebe a maior virtude é não viver do passado, pelo contrário, é usar o passado como alavanca pra ir pra frente.
Tacioli – Você ainda quer fazer o melhor disco dos Inocentes?
Clemente – Sim, claro, estou com um monte de idéias, mas não consegui ainda chegar num resultado. [ ri ] O disco novo da Plebe é muito bom. Eu posso falar como um cara que veio de fora, porque quando cheguei o disco estava quase pronto. É uma Plebe, mas apontando pro futuro. E não uma Plebe, “Ah, vocês vão ver a mesma coisa que os caras faziam”. Pelo contrário, estão todos os elementos lá, mas apontando pro futuro.
Almeida – É um som pra molecada ou pros caras da idade de vocês?
Clemente – Aí que tá, né? É um som pra quem gosta de música. Então a gente tem molecada e tem (os mais velhos). Porque não existe o estereótipo da molecada. Se eu for fazer um som pra molecada, estereótipo, eu vou fazer emocore, como uns nenês… E a gente nem tem o espírito, não tem os elementos para fazer aquilo… [ risos ]
Dafne – Ia aparecer forçado, né?
Clemente – Sim.
Dafne – Ia ser muito forçado. Imagina uns marmanjos…
Clemente – Nossa!
Almeida – Sofrendo.
Clemente – Sofrendo, com aquele duetinho gritado que todas as bandas põem. Não que as bandas não possam falar de amor, mas é que fazem letras ruins. Não são somente músicas de amor, são letras de amor ruins. E todo mundo fala: “Não, a gente tem emoções intensas e as pessoas não gostam…” Eu apresentei umas bandas (no Showlivre), umas bandas boas, mas o que avalio é a qualidade do texto e da música: são baixas. Usam as mesmas melodias, as mesmas harmonias. Você ouviu uma, ouviu quase todas.

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