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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 23/29

Era do caralho fazer o Perdidos na Noite!

Tacioli – Os artistas novos ainda têm uma expectativa com a gravadora, dela ser a matriarca que banca tudo. Mas a realidade é outra.
Clemente – Na época, ser independente é ser dependente, né? Dependente da sua própria grana pra investir, entendeu? E na década de 80 não existiam os mecanismos que existem hoje, que propiciem que exista uma cena independente tão forte como essa de hoje. Então, pras bandas de rock a primeira gravação independente era legal, mas chegar numa grande gravadora dava uma estrutura pra virar uma coisa de verdade, para trabalhar. Mas mesmo assim o primeiro disco da gente pela Warner poderia ter sido independente, pra gente entender essa relação rádio-gravadora-mídia. A gente tinha uma visão muito romântica e idiota. A gente acreditava em todo mundo. Então, o cara da Folha de São Paulo (dizia): “Vou fazer uma puta matéria legal falando bem de você”. Aí um ano depois, tudo aquilo que falou que era legal em você, eram todos os seus defeitos. [ ri ] Então era uma bosta…
Tacioli – Como foi a relação do Inocentes com a TV?
Clemente – Foi legal. Fizemos todos os programas, até a Mara Maravilha. A gente entrou…
Tacioli – No trem?
Clemente – No trenzinho… [ ri ] A gente rolava de rir, era muito engraçado.
Dafne – Eu vi um dia desses uma participação do Paralamas no Bozo.
Clemente – Nossa, cara, no Bozo não cheguei a ir.
Dafne – Sensacional! Ele tocaram uma música e ainda por cima fizeram a brincadeira do balão: ficaram os três vendo quem enchia primeiro o balão. [ risos ]
Tacioli – Fora essa história da Mara, há outras?
Clemente – Era do caralho fazer o Perdidos na Noite! Eu vi um vídeo da gente tocando… “Meu, que legal!” O público delirando, o Faustão… Era engraçado. Na noite em que a gente tocou teve uma cantora lírica. Quando terminou, todo mundo “Aaaaah!” e batendo palma. Atrás dela estava o Tatá com uma placa: “Aplaudam pelo amor de Deus!”. [ risos ] Cara, genial! Mas não tinha MTV. O rock se fodeu na década de 90 porque acreditava que era só gravar um clipe e colocá-lo na MTV, que não precisava ir aos programinhas, não precisava fazer nada. Tanto é que eu tive uma discussão com Fred, do Raimundos. “Pô, será que a gente deve ir?” Eu falei: “Popular vocês já são. Se vocês não forem, o cara do pagode vai. Aí não reclama que o rock não tem mais espaço”. Lembram que o rock estava em baixa e o pagode (por cima). “Vai, meu, foda-se ! Vai fazer uma coisa diferente?” Aí ele começaram a ir e venderam 700 mil cópias do Só no forevis. A gente não foi ao Chacrinha e teve uma campanha das bandas “O Chacrinha cobra jabá”. Saiu uma matéria na Folha. Aí vieram me entrevistar esperando que eu fosse descer a lenha no Chacrinha. “Ué, só faço uma coisa: não vou.” O Chacrinha quer que a as bandas paguem jabá, que façam show de graça…

Tacioli – Vocês receberam convites do Chacrinha?
Clemente – Sim e falamos: “Não, não vamos, cara. Pagar? Não”. A não ser aqueles arranjos que a gravadora fazia, mas se dependesse da gente, não. Santa ingenuidade também fazer show de graça pro Chacrinha para periferia toda. Que é isso, cara? Fazer playback? “Não, pára!” Fazer playback na televisão é engraçado. Agora fazer um show com playback é deprimente. E aí quando saiu a entrevista com todas as bandas reclamando, como o Ira!: “Ah, nos recusamos a pôr o chapéu de Papai Noel pra entrar no Natal no Chacrinha”. Não! Isso eu faria na boa. [ risos ] Você quer ser sério no Chacrinha, com o cara distribuindo bacalhau? “Não, a minha banda é super séria.” [ ri ] É uma idiotice, né, cara?
Almeida – Pra entrar no clima.
Clemente – Meu, vá se fuder. Se é pra afundar na merda, afunda de uma vez. [ ri ] “A merda vem até aqui, mas daqui mantenho a minha dignidade.” [ ri ] O cara da Folha ficou puto. Eu falei: “Meu, não vou, só isso.” Você não gosta, vai, aproveita, faz sucesso em cima do Chacrinha e ainda depois ainda reclama, como o Titãs? Não vai, cara!

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