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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 22/29

"Midani, dá para depositar uma grana na minha conta?"

Dafne – Clemente, você falou que casou cedo, está com uma filha já mulher, com 19 anos. Como foi isso pra sua vida, o que mudou?
Clemente – Ah, tive que parar de beber, né? [ risos ] É difícil você encher a cara a noite toda e acordar cedo pra cuidar de nenê. Você tem que começar a ter regras. A gente enchia a cara todo dia… E aí a responsabilidade…
Almeida – Foi um pai presente?
Clemente – Sim, eu ficava com ela em casa, na fase de baixa, (logo que) saí da Warner, duro, fodido, não tinha um centavo. [ ri ] A Warner: “Olha, acabou o contrato”. “Tá legal. E agora, o que a gente vai fazer da vida?” Aí ficamos três anos sem gravar. Nossa, cara, horrível, a pior coisa. Aí o Frejat, que via a situação: “Pô, Frejat, me empresta uma grana pra eu levar minha filha no pediatra”. “Porra, né, meu?” E todo mundo: “Porra, Clemente, você é do caralho…”. E ele falou: “Não, você é do caralho e vou gravar uma música sua pra você ganhar uma grana”. “Pô, legal, cara!” Aí eu dei uma letra pra ele e saiu a música “Fios elétricos”, que entrou naquele seriado da Globo, Sex Appeal, que lançou a…
Almeida – Pô, é mesmo, a Luana Piovani.
Clemente – É, Piovani. E eu: “Porra, cara, até que enfim”.
Almeida – E veio uma bolada?
Clemente – Veio uma graninha, não uma bolada, mas, porra… O Frejat foi um cara do caralho… Em vez de ficar: “Ah, você é do caralho e tchau”. [ ri ] “(Vocês vão) abrir um show do Barão!” Abrimos um show do Barão, pegamos 5% da bilheteria e os caras: “Porra, desculpa aí, só deu pra dar 5%, porque sabe como que é…” E nós: “Ah, tudo bem, tudo bem”. Fechou a porta: “Ah, dinheiro!” Nunca vi tanto dinheiro! [ risos ] Cinco mil pessoas no Olímpia é uma puta grana. [ risos ] Foi como em 85 quando a gente abriu um show do Legião no Circo Voador, a maior lotação do Circo. Os caras deram 10% da bilheteria pra gente. A gente ria chorando! [ risos ] E trio ainda… [ ri ] Mas é foda porque é diferente viver da música. E a gente chegou muito cedo na Warner. Éramos muito moleques.
Almeida – Teve uma coisa legal dessa fase por estar numa major?
Clemente – Ah, é do caralho. Foi legal porque a gente conseguiu viajar o país todo, tocava na rádio, isso fazia com que a gente fizesse shows. Eu falo pra molecada: “Por que o Ramones é legal?” Porque tocava na rádio, você ouvia Ramones na 89. Da 89 lembro de quando a gente levou a demo de “Rotina”. Entreguei na mão do Everson a fita de rolo. Meu, entreguei pro cara, saímos de carro, e estava tocando a música, cara! Não tinha jabá!
Almeida – Quem tava lá, Clemente?
Clemente – Era o Everson…
Almeida – O diretor era o Massari?
Clemente – Não, muito antes, muito antes. Isso foi em 85. Era rádio Pool e tinha virada 89. A gente estava lá com Inocentes da nova fase, fazendo show… A gente saiu do movimento punk, conseguiu se desligar, ficou dois anos pastando e começou a fazer todo o circuitinho: Rose Bom Bom, Madame Satã… (No Madame) os caras não deixavam porque a gente era muito punk, mas fazia o Via Berlim, o Zona Fantasma, o Lira Paulistana. Começamos a fazer todas as casas que começaram a encher. Era do caralho e aí a Warner cresceu os olhos. O Centro Cultural (São Paulo) lotado. Eu lembro que a gente chegou no Rose e a menina: “Olha, vou dar uma quarta-feira pra vocês”. Chegamos na quarta-feira e tinha três caras olhando pra nós. Fizemos o show. “A banda é legal. Vamos dar uma quinta-feira”. Na quinta-feira aqueles três caras com uísque voltaram e levaram mais uns amigos. Aí deram sexta e sábado: a maior lotação do Rose era nossa. O Paralamas fez temporada e não tinha lotado como a gente. Então a banda começou a pegar uma fama. E os shows estavam legais. Levei a demo na 89 e na hora começou a tocar. Essa coisa do rock da década de 80 era legal porque ainda existia o DJ na rádio, aquele cara que tocava vinil. Não é aquela programação feita por computador e o cara fica lá somente falando. E na época tinha o DJ. De madrugada, quando a gente estava indo para a balada… “Puta, o Coke Luxe no rádio!”, e ouvia, [ canta ] “Não beba, papai, não beba” [ n.e. canção lançada em 1983 pela banda Coke Luxe, formada por Eddy Teddy, Little Piga, Bitão, Lelo Cadillac e Billy Breque ]. Ou ainda [ canta] “Você anda namorando a minha filha com segunda intenção” [ n.e. letra de “Adivinhão”, música de Baby Santiago e Wilson Miranda, que o Magazine gravou em 1983 ]. O cara tinha aquele espaço da madrugada…
Almeida – Pra escolher o que ia tocar.
Clemente – É. Por isso que as bandas começaram a ganhar (espaço), porque na hora em que a garotada saía, o dono da rádio dormia [ ri ] e os caras (DJs) tocavam os sons legais, saca? Então era uma época diferente. E esse lance de estar na Warner propiciou que a gente conseguisse viajar, que o nosso disco fosse distribuído e que a música tocasse na rádio com freqüência. A Warner, na verdade, foi legal. A gente foi uma das poucas bandas que assinou um contrato com a Warner que fazia reunião com o presidente da Warner, o André Midani. (Ele dizia): “Pô, contratei vocês por causa do texto, que é muito bom. Vocês vendem pelas atitudes, pelo visual. Isso é legal! Vai entrar no Brasil uma tal de MTV.” E nós: “Ah, sim, porra, MTV” .E ela ia pegar a metade da programação da antiga TV Manchete. Só que a MTV entrou quatro anos depois [ ri ], e os caras não sabiam mais o que fazer com a gente. Mas a idéia era boa: “Gravar um puta clipe com vocês. E adoro o texto de vocês e vamos beber…”. E bebia junto. E aí eu ligava a cobrar pra ele do orelhão, para o Rio de Janeiro: “Alô, André Midani? Estou duro, cara. Estava pensando em ir no Madame Satã. Dá pra você depositar uma grana na minha conta?”. “Pô, Clemente, claro.” “Porra, que cara legal!” [ risos ] Hoje você não conversa com presidente de gravadora porra nenhuma. Na Abril Music, o Maynard era uma lenda, tanto que se fodeu com o negócio da EMI.

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