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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 20/29

“Cadê o movimento punk para comprar o nosso disco?”

Almeida – Clemente, essa rede de comunicação que vocês criaram analogicamente com as cartas chegou a ser musical, no sentido de vocês irem pra lá ou deles virem pra cá?
Clemente – O Cólera foi depois. Então essa cena alternativa, esses shows que o Ratos de Porão faz lá fora nasceram aí. O Inocentes não foi porque casei cedo, tive filho cedo, a gente foi pra Warner… Pegamos um outro caminho. Na verdade, fiquei muito magoado, porque demorou anos pra construir uma cena e vê-la destruída em tão pouco tempo, de uma maneira tão chata, tão brutal. Pra mim acabou quando mataram o Nenê, que era do ABC. Numa briga, os punks de São Paulo mataram o cara na São Bento. E eu namorava com a irmã do Nenê do ABC. Eu ia pro ABC. Eu circulava em tudo quanto é lugar, porque eu era contra essa coisa. Eu brigava, claro que eu brigava, mas não era briga burra. “Você é de lá, eu sou daqui, eu vou socar”. Porra, tinha motivos mais interessantes, tipo: “Você pisou no meu pé! Pum!” [ risos ] Tanto é que eu andava com todo mundo, andava com os chamados new wavers, com o pessoal do rock paulista. Eu circulava. O meu negócio é música, é atitude, é comportamento, é poesia. Então gostava de circular, cara. Então quando mataram o Nenê do ABC, (o punk) morreu pra mim. Senti uma coisa muito forte. Foi em 83. Aí o Inocentes foi fazer um show NaPalm. A gente tinha acabado tirar o Ariel da banda, que também era nosso bairro, que era ex-vocalista do Restos de Nada, que gostava de poesia e que apresentou muita coisa pra gente casou com a irmã do Douglas. [ ri ] A gente ia à casa dele e lia O direito à preguiça. “Ah, lê esse livro que é do caralho!” Então, toda a nossa formação nasceu ali. E o Ariel estava mais pra morrer de vodca do que escrever. [ ri ] O cara quase morreu. Aí tiramos ele da banda, foi meio traumática a saída, e fomos fazer um show no NaPalm em trio. “Os caras vão tocar no NaPalm. Traidores! (Entrar no) NaPalm custa dez, doze reais. Tem que tocar pros punks por seis.” Rapaz, olhei pro Calegari, olhei pro Marcelinho, falei: “Meu, vamos acabar essa bosta. Tô de saco cheio disso daqui!”. A gente vai ao NaPalm, uma casa pros punks tocarem, e eles “Ah, só vai playboy aí. A gente quer tocar pra periferia!”. Foi até o Ariel que começou com essa coisa. Hoje a gente está se falando, tal, mas a (minha briga com ele foi) por causa disso. A Punk Rock queria fazer uma camiseta do Inocentes e ele: “A Punk Rock é capitalista!”. “Ô, Ariel, capitalista é a Shell. A Punk Rock é uma loja da Galeria. Ela vai vender (a camiseta) pra uns vinte punks, cara?” [ risos ] “Não! Autogestão! Vamos fazer nós mesmos a nossa camiseta.”
Tacioli – Aí compra a tinta de não-sei-de-quem…
Clemente – Mas “Cadê a camiseta?”. [ risos ] Discursar ali, mas fazer mesmo, né? Aí pra gravar o compacto: havia uma casa, que era a puta casa da moda, o Hong Kong, e que queria fazer um show do Inocentes, que era a banda sensação, que tinha sido expulsa do Gallery. Éramos os caras, né? “Ariel, tem um show no Hong Kong. Os caras vão pagar cachê e a gente vai pegar essa grana e gravar o nosso disco, bancar o estúdio, fazer tudo.” “Não tocamos para burgueses, não-sei-o-quê.” “Ariel, alguém tem que pagar a conta.” [ ri ] “Os punks não têm grana. A gente vai lá tocar, os caras têm grana, pagam, a gente pega a grana e investe, faz o disco.” “Não! Quando sair o nosso disco, todos vão comprá-lo, porque o movimento punk quer ver o nosso disco, quer a coisa andando pra frente.” Lançamos o disco… Puf! Não vendia… Foi uma dívida monstruosa com prensagem, … “Cadê o movimento punk para comprar o nosso disco?” Os caras gastam 50, 70 paus pra comprar um disco importado da Finlândia e não gastam 10 contos pra comprar o nosso compacto. Aí falei: “Não, não dá! Estou fora!” E mataram o Nenê do ABC. “Ah, não, estou de saco cheio. Chega! Quero tocar, sou músico, quero tocar!”
Almeida – Você foi fazer o quê, Clemente?
Clemente – Fiquei um ano bebendo, frustrado, [ risos ] sem banda. Aí os caras do meu bairro – o Tonhão, que conheço desde os seis anos de idade, e o André e o Ronaldo, que toca comigo até hoje – tinham uma banda chamada Neuróticos e me chamaram pra cantar. E aí parei um pouco a bebedeira e fui cantar com o Neuróticos. E a gente resolveu formar uma outra banda. “Vamos montar uma banda nova, meio pós-punk, misturar umas coisas, pôr uns efeitos e não-sei-o-quê”. Aí montamos uma banda, escrevi umas músicas, “Expresso Oriente”, “Rotina”… Mas a banda não tinha nome. Aí um amigo nosso, o Marquinhos, foi a um ensaio e “Ah, pra mim isso aí é Inocentes”. “Ah, então vamos continuar Inocentes, né?” Aí começou: “Traidor!”, porque a gente estava numa banda hardcore. E os caras: “Ah, traidor! Vamos matar vocês!”. Nossos primeiros shows foram assim, com a nossa própria gangue querendo matar a gente. [ ri ] Mas aí foram se acostumando e a gente saindo do movimento punk. Tanto é que a gente chegou à Warner como uma banda pós-punk. Tinha um monte de referência. Mas é claro que era a banda punk, mesmo se a gente tocasse valsa. “Não tem jeito! Foda-se! Não vou explicar.” Em 82 era a época do hardcore, do charge, daquele (som) mais porrada, mas a gente, em vez de mamar nisso, voltou pro começo, para o punk 77, que tinha a mistura pro new wave, para aquela coisa mais legal, porque ainda não havia regras, todo mundo estava inventando o punk, cada um fazia a sua maneira. A gente voltou para aquela praia, que é a mais interessante do punk até hoje, né?

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