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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 19/29

Então não sou punk!

Tacioli – Foi nesse sentido que perguntei se esse ecletismo motivava essa história “ Ah, os traidores…”. Você eram muito mais ecléticos…
Dafne – É posterior.
Clemente – É posterior. Houve uma hora em que falei: “Meu, chega! Vocês são os punks, eu não sou mais”. Fui a um show punk que teve na Galeria um ano atrás e falei: “Nossa, realmente não sou punk. Isso aí é punk. Eu não sou mais!”. Não tem nada a ver, fechado, os caras de periferia, [ engrossa a voz ] “Todo mundo é boy. Você é boy, você é boy. Vou socar você. Vamos destruir o sistema!”. A música é ruim, é tudo ruim. As letras são ruins. Muito ruim, cara. Eu não sou punk, sou qualquer outra coisa.
Dafne – Mas é possível ser punk não sendo mais jovem? Uma coisa está ligada a outra ou não?
Clemente – Cara, acho que não. O Ronald Biggs era um puta punk e era velho pra caralho na nossa época. [ risos ]
Almeida – Como foi esse encontro?
Clemente – O Ronald Biggs, na verdade, gravou uma música com o Sex Pistols em 78, chamada “Ninguém é inocente”, que entrou naquele filme The Great Rock”n”Roll Swindle, do Sex Pistols [ n.e. filme de 1980 dirigido por Julien Temple ]. Eles vieram para o Rio de Janeiro, gravaram uma cena como se fosse uma banda. Era um sargento nazista no baixo, Klaus Bormann, não sei o nome, mas que estava aqui escondido no Brasil, todo velhão fingindo que estava tocando baixo; e o Ronald Biggs cantando… E saiu um single dessa música. Então o Ronald Biggs virou um ícone do punk que deu certo. Tomou dos ricos para dar aos pobres, no caso ele mesmo. [ risos ] E essa era a brincadeira! Tanto é que muitos punk hoje falam “Sex Pistols não foi punk!”. Claro que foi, meu! Ia às gravadoras, assinava um puta contrato milionário, depois ia lá, fodia tudo e pegava uma puta grana. “Ua! Viva!” Porra, coisa mais punk do que isso? Então, o punk ficou chato, você ser punk de verdade ou de mentira, ou você andar assim ou assado. Ser punk é muito mais do que isso, de todo mundo se limitar. Você absorver várias coisas e usar numa outra linguagem, que é a sua. Mas tem vários escritores que são punks até hoje, tem muita gente. Não tenho mais a preocupação em ser punk, entendeu? Sou eu mesmo, que se foda o hoje em dia. Eu gosto de música, ouço um monte de coisa. Um dia eu estava delirando ouvindo o Mercado de Peixe, não sei se vocês conhecem?
Almeida – De Bauru.
Clemente – Bauru. Porra, é do caralho!
Almeida – É da minha época de Bauru. Eu estudava na UNESP quando começaram.
Clemente – Nossa, acho muito bom aquele disco. Tanto é que os levei à gravadora, apresentei e os filhos-da-puta nem agradeceram “Obrigado!”. [ ri ] Falei: “Vou produzir os caras!” Toma. No Musikaos [ n.e. programa da TV Cultura apresentado por Gastão Moreira e produzido por Clemente no início dos anos 2000 ] a idéia era essa, levar as bandas, mostrar a rapaziada que estava fazendo, o movimento da cena, como hoje aqui no Showlivre. Porra, é preciso ser punk?

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