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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 1/29

A minha Xuxa foi a Jovem Guarda

Ricardo Tacioli – Clemente, quais perguntas você não agüenta mais responder?
Clemente – [ afina a voz e diz… ] “Você ainda é punk?” Ou aquela famosa: “Por que Inocentes, hein?” Ai, ai, ai. Tem água aqui e copo ali.
Tacioli – Clemente, você já tem uma curta, mas bacana relação com o Gafieiras, graças ao Matinê. [ n.e. Especial infantil para adultos promovido pelo site em todo mês de outubro. Clemente participou da versão 2006, que teve como tema “Monstros, medos e angústias que a gente nunca esquece” ]
Clemente – Que foi bem bacana.
Tacioli – Bom, a proposta do site é colocar os vários protagonistas da música brasileira no mesmo espaço e com o mesmo tratamento editorial. E sempre por meio de um bate-papo e não de uma entrevista por conta de um lançamento de disco ou de sua entrada na Plebe.
Clemente – Tá legal!
Tacioli – Que lembranças você tem da sua infância? Onde você passou? E como era a sua relação com a casa onde morou?
Clemente – Eu tive uma infância boa. Sou paulistano. Quando nasci fui viver na Aclimação, do lado do Hospital Modelo. Era uma casa, uma curtição. A gente morava lá – era eu e as minhas duas irmãs. Era legal, porque era perto do Teatro Record, onde se filmava um monte de coisas. Com três, quatro anos de idade, vi programa de auditório com Os Incríveis tocando; as minhas irmãs me levavam. “Vamos lá!” Elas não tinham saco de ficar em casa comigo. Então, a primeira banda de rock que vi tocar foram Os Incríveis. Havia um cinema perto de casa, onde ia ver os filmes da Jovem Guarda. Eu lembro de’u chorando. A minha Xuxa foi a Jovem Guarda. [ risos ] Assim, tive o privilégio de ter o bonequinho do Tremendão e o bonequinho do Robertão. E aí, com seis, sete anos, eu mudei pro bairro do Limão. Aí, sim, fui pra periferia mesmo; meu pai comprou uma casa do BNH… Uma infância legal, aquela molecada de rua… Era uma rua com um conjunto habitacional e tal. Uma coisa super saudável, de jogar bola em terreno baldio e apertar a campainha da casa do vizinho e sair todo mundo correndo. [ risos ]
Dafne Sampaio – Ouvi há pouco tempo uma versão mais sofisticada desse negócio de apertar campainha e sair correndo. Apertava, colocava chiclete e saía correndo.
Clemente – Ôrra, que sacanagem. Fica grudado, né?
Dafne – Fica grudado. Se você tivesse pensado nisso.
Clemente – É oportunidade. [ risos ] Eu só saia correndo.
Tacioli – O que motivou a mudança da Aclimação foi a compra da casa?
Clemente – A compra da casa, né? Meu pai entrou no famoso plano do BHN. Era década de 1970. Quem era presidente? O Médici? Estava fazendo a Transamazônica. Brasil grande, não-sei-o-quê, e “Vamos investir no BNH, casa pro povo!”. [ risos ] Aí meu pai entrou na roubadona e nós fomos morar no bairro do Limão: Conjunto Habitacional Novo Pacaembu, olha que lindo.
Dafne – E como foi essa mudança de bairro?
Clemente – Foi legal pra mim. Eu era muito pivete. E tinha um monte de gente mudando pra lá, um monte de gente chegando de vários lugares. Então eu perdi aquela facilidade urbana de estar no Centro, de ir ao Teatro Record, de ir ao cinema pertinho. Era tudo busão, era tudo longe. Se meu pai não levava de carro – tinha um fusquinha, setentão -, ia de busão. Era uma outra relação: a gente ficava mais no bairro. E aí, foi super saudável porque havia aquela garotada do bairro que cresceu junto. Tanto que o baterista do Inocentes na época do Pânico em SP, da época da Warner, é meu amigo dessa época, dos seis anos de idade. Foi um dos primeiros amigos que conheci no bairro do Limão. E o baixista era o irmão dele. [ri ] Foi legal, porque vi a Copa de 70 lá, foi a primeira Copa transmitida. E a lembrança que eu tenho é boa. Quando saía um gol, a molecada toda saía na rua pra se abraçar. Perdia metade do jogo se abraçando, comemorando. E aí voltava cada um pra sua casa e continuava vendo o jogo. Aí saía outro gol. “Ahhhh!” E saía aquela molecada toda, uns dez moleques. Era bem divertido.

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