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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 18/29

Maiakovski era o meu ídolo

Tacioli – Mas tiveram outros momentos em que você sentiu a necessidade de se expressar como na carta?
Clemente – Sim. Aí fiz o famoso manifesto, que foi na (revista) Galery Around, que tem a frase “Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para atrasar o Trem das Onze, para pisar nas flores do Geraldo Vandré, para pintar de negro a Asa Branca e fazer da Amélia uma mulher qualquer”. Mas essa frase eu falava em 79, na Carolina, quando enchia a cara, subia no muro e declamava: “Um dia o punk rock…” Preconizando, fazendo já…
Dafne – Futurologia…
Clemente – Já pensando na revolução punk que ia acontecer. Aí todo mundo ria pra caralho. Era a maior, tinha um monte de músico da MPB. E isso porque a gente ouvia isso, entendeu? A gente queria uma ruptura com a idiotice. Achávamos que a gente era o novo e fazia parte disso. A gente não achava que era uma coisa estrangeira, saca? A gente fazia parte disso, era uma linguagem. E o rock’n’roll existia no Brasil desde os anos 50, né, cara? Não tinha essa de: “Ah, vocês fazem rock, punk, coisa gringa”. Não! A gente estava dando continuidade à uma coisa que fazia parte da cultura brasileira”.
Tacioli – Clemente, você tem esse trato com o texto. Você gosta da letra, falou do jornalismo. O que você lia?
Clemente – Eu lia Nietzsche com 14, 15 anos. Ficava discutindo como professor de português: “Ah, porque Nietzsche, o super-homem…” Nem lembro mais. E bêbado: “Ah, e Nietszche…”. E ele: “Você tá lendo Nietzsche?” [ ri ] “Tô.”
Tacioli – Onde você achava essas histórias?
Clemente – Na turma, nessa troca, entendeu? Na casa do Douglas, quando a gente era pivetinho, líamos Hermann Hesse, né? O Lobo da estepe, essa coisa toda. Gibran Kalil Gibran, essa coisa de hippie. E aí foi indo até chegar ao George Orwell da vida. Então, tudo que ia na mão (era lido), né? E até chegar no Maiakovski, que era o meu ídolo. “Quero escrever que nem esse cara. Quero morrer que nem ele.” Como era que ele falava? “Antes morrer de vodka do que de tédio”. Era isso que eu fazia. [ risos ]
Tacioli – Mas com Sangue de Boi…
Clemente – Está quente aqui, né? Vou abrir essa janela… Na verdade, eu queria mais ser escritor do que músico. Gostava muito de Camus. Não só eu, porque o The Cure em “Killing an arab” é um trecho de O estrangeiro. Você pega A queda… Todo mundo era meio existencialista. Tanto que uns caras os punks dos novos existencialistas. O que acontece com essa segunda geração, que eu chamo de “mais tapada, é que se perdeu a poesia. Ficou somente a coisa: [ canta ] “Nós temos que destruir o sistema / O governo nos fode, nós vamos fuder…” Não é isso, né, cara?

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