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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 17/29

Foi a coisa mais estúpida que vi escrita sobre o punk

Tacioli – Você falou que ir pro ABC é coisa de um diplomata. Quando e de que forma isso – ser um porta-voz – se manifestou em você?
Clemente – Não sei, cara. Sempre tive essa coisa de chamar. Nunca fui um cara que gostasse de segmentar. É engraçado: na turma punk da Carolina, tinha o Pedrão, que era o cara que fazia o samba-enredo da Primeira de Vila Carolina, da escola de samba; tinha um hippie velho, amigo nosso, que andava com a gente. Tinha um povo meio estranho. Pô, meu, era um coisa de unir, mas não sei. Sempre tive facilidade com texto. Por exemplo: quando saiu a matéria no Estadão destruindo o punk, a gente estava lá na Punk Rock. Todo mundo olhou pra mim e falou: “Ó, meu, você quem vai escrever”. Não sei se é porque eu estava na faculdade na época, oque era raro, né?
Tacioli – Você fazia o quê?
Clemente – Eu fazia Administração, não; eu fazia Comércio Exterior. Eu tinha prestado pra jornalismo. Passei, mas não tinha grana pra pagar. Na USP não consegui entrar. E a firma falou: “A gente paga a faculdade, mas você tem que fazer Comércio Exterior”. Era uma empresa de comércio exterior, né? E aí pagaram o curso. Nos primeiros dois anos fiquei na Administração. Eu odiava aquilo; parecia que estava indo para a forca. Não era o curso que eu queria fazer, mas “de grátis até injeção no olho”. E o mais legal é que eu fazia Comércio Exterior nas Faculdades Tibiriçá, onde é o Colégio São Bento, ali no Largo São Bento. [ ri ] Aí saía na hora do intervalo com os amigos da faculdade, e os punks, um puta lixo, “Ô Clemente! E aí, Clemente!”. Os caras: “São seus amigos?”. “Meus?! Não! Nunca vi.” [ risos ]
Tacioli – Seu visual na faculdade era comportado.
Clemente – Saia do trampo e ia pra faculdade direto. Trabalhava o dia inteiro, saía do trampo, faculdade, saía da faculdade onze e meia, meia-noite, chegava em casa, jantava, aí outro dia, seis horas da manhã. Era uma porrada.
Ângulo – E a música ficava somente para o fim de semana?
Clemente – Fim de semana. Aí a gente ensaiava na minha casa: das duas até as seis. Era uma barulheira do cão. Ia todo mundo lá em casa, a gangue inteira. Era um salão grande, onde ficavam aqueles montes de litros de vinho. [ ri ] Ficava todo mundo lá, só ouvindo, conversando, ia pro quintal. Os caras tocavam uma zona na minha casa, os filhos-da-puta. Meu vizinho delirava, adorava. Ele ficava na janela e, quando passava um cara de moicano, falava: “Parece uma galinha, quaquaquá”. E rolava. [ risos ] “Olha aquele lá que tem os cabelos arrepiados, tomou um choque! Quaquaquá.” O cara adorava. Ele me aturava de sábado. Aí, no domingo, eu tava fudido: chegava e deitava às seis da manhã, e às nove horas, pum, aquele Roberto Carlos alto pra caralho. Era o vizinho fazendo churrasco.
Tacioli – Ele se vingando.
Clemente – Na boa. Eu só virava, “Tá bom”. Ele nunca reclamou, meu! (O som) era muito alto, cara. Tinha um Thunder Sound pra guitarra, cabeça e caixa ligados no dez, distorção, gritando pra caralho, e o cara aturava na boa.
Almeida – Mas você acha que era por medo ou por cordialidade?
Clemente – Não, ele achava legal aquilo, adorava, curtia, gostava de ver a molecada… E eu o aturava. Era essa coisa de “o meu direito ir até onde vai o seu”. E voltando do escrever… Era uma coisa natural; acabei escrevendo a carta pro Estadão… E aí quando a carta foi publicada, o Fernando Meirelles viu e já foi fazer o documentário. O Bivar viu e fez a matéria pro Gallery. Aí todo mundo viu que existia punk no Brasil. A gente não mandava release pra jornal (pra falar) o que estava acontecendo, entendeu? Isso era uma coisa nossa. A gente fazia porque gostava de música e achava que essa era a nossa vida. Não importava se “Vamos…”
Dafne – Vamos ganhar dinheiro com isso.
Clemente – Não, não.
Almeida – Não precisava estar na mídia pra isso ser real, né? Não precisava ser notícia pra isso se tornar uma realidade.
Clemente – Não, a gente estava pouco se fodendo. Então, quando a mídia descobriu o punk rock ele já existia fazia tempo. Teve um show de punk desses Gritos Urbanos que rodavam pela periferia de São Paulo na zona sul quando os punks da zona sul apostaram com a minha turma, que era da zona norte, que a gente não ia conseguir mais punks do que tinha lá. Falamos: “O quê?”. Alugamos três ônibus da CMTC, mas lotado, apinhado de punk. E quando pararam os três ônibus e desceram 60 caras de cada um: “Pô, meu!”. Fora aqueles que vieram de fora. Foi do caralho! E isso era tudo coisa nossa, coisa do movimento punk. E já acontecia antes da grande mídia descobrir punk.
Almeida – Você lembra quem fez a matéria, Clemente?
Clemente – Luiz Fernando Emediato. Eu não sei o que ele faz hoje, mas foi a coisa mais estúpida que já vi escrita sobre punk.
Almeida – Teve uma tréplica pra tua…
Clemente – Eu fiz a carta…
Almeida – Sim, mas uma resposta…
Clemente – Ah, teve uma respostinha meio “É, vocês falam que não violentos, mas no cartaz está escrito: Moqueia tudo na quebrada”. [ risos ]
Tacioli – Mas essa carta, que é emblemática, gerou outras cartas, outras expressões…
Clemente – Cara, (na carta) fiz uma dissertação sobre o punk. Falava que era um movimento social por causa disso, disso e daquilo; que era político por causa disso, disso e daquilo; que era até econômico porque a gente produzia nossos próprios discos… Meu, era um tratado, um manifesto! O problema é que não tenho mais a carta. E é claro que eu menti um pouco, porque aquele bando de bêbado… [ risos ] Mas ficou bonita. O cara leu e ficou meio assim: “Você falou tudo isso, mas no flyer do show – que eu havia enviado – está escrito Moqueia tudo na quebrada”. [ risos ] Nem respondi.

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