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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 16/29

O Kid Vinil era da nossa turma

Tacioli – Clemente, você falou que o punk era muito coletivo – a criação, a sociabilidade. Hoje o punk seria viável?
Clemente – Cara, engraçado, não sei, esse negócio de internet aproximou tanto, mas ela é muito individualista. Vejo a minha filha: ela não sai do quarto dela…
Tacioli – Tem quantos anos?
Clemente – Tem 19 anos. Ela não sai do quarto dela. Eu com 19 anos ia encontrar a minha turma. E as pessoas são isso, ficam falando com o mundo, mas estão sozinhas. Estão lá ao computador, no Messenger e conversando e trocando e tal e não estão com ninguém. E eu não, porra, “Ficar em casa com 19 anos?”. Nunca, eu ia pra São Bento, ia encontrar a turma, conversar, ouvir música, ver filme; era estar na rua, ver as coisas de verdade. Esse negócio virtual é realmente virtual demais [ risos ], não existe, saca? E as pessoas estão cada dia mais isoladas. Mas por outro lado tem uma cena alternativa crescendo. É meio doido. Hoje eu chego numa Outs parece que estou numa casa punk de 77, porque o visual é o mesmo, o som é o mesmo. [ risos ] As bandas de hoje são iguais às bandas de 77. Então, estou em casa. O comportamento é o mesmo. Forgotten Boys é o Dead Boys, uma banda que vi em 76, 77. Então assim, é muito louco isso porque é um retorno. E o visual é o mesmo, cara, é o mesmo! É o visual que a gente queria ter na época, mas não tinha grana, porque não havia onde comprar aquelas coisas; você tinha que fazer. Então ficava lá colando a pulserinha, colando um rebite, fazendo um cinto, “Den-den-den”, e aí chegava à noite e o policial “Dá esse cinto!”. E chorava, “Fiquei a noite inteira fazendo!”. [ risos ] Hoje você vai na Galeria, entra de um lado bancário e sai do outro lado tatuado, punk pra caralho.
Tacioli – Mas você tem essa relação afetivamente forte com a Galeria, com esses espaços…
Clemente – Sim.
Tacioli – Mas de frequentar? Ou é algo frustrante?
Clemente – Não, pelo contrário, é legal, porque quando entrei na Galeria pela primeira vez pra comprar um disco na Wob Bop, em 78, só tinha uma loja, que era no segundo andar, que era Wob Bop. Havia um zine da Wob Bop, que falava de rockabilly dos anos 50, depois começou a falar de punk. Começava a vir umas pinceladinhas. “Pô, do caralho!” Era lá na Wob Bop que chegavam as novidades do punk-rock. Foi lá que eu comprei todos os meus discos básicos do punk. E era aquela coisa: chegava um lote, cada um pegava um. Então, eu tinha um e o outro tinha um outro disco, ninguém tinha o mesmo. Comprei o primeiro do Bad Boys; então, somente eu era quem tinha o primeiro do Bad Boys. Mas eu não tinha o Stiff Little Fingers. Aí a gente era obrigado a trocar como outro e gravar. Então na casa do Gustá, um amigo nosso da Vila Carolina, era onde ficavam os discos. Todo mundo ia lá, deixava os discos, escolhia e fazia a seleção de fitas-cassetes.
Tacioli – Era uma discoteca coletiva?
Clemente – É. Não era uma coisa combinada, porque a casa do Gustá era o lugar onde a gente ficava. Às vezes não havia lugar pra ir na sexta-feira, voltava da escola, “Ah, vamos pra casa do Gustá, né?”. A mãe dele não reclamava, ele tinha um puta som, “a nossa equipe de baile” ficava lá [ risos ], o equipamento era dele… E a gente fazia as seleções de fitas lá. Chegava um e “Pô, olha só o que eu trouxe aqui!”. “Nossa, que é isso, um Cure?” O primeiro do Cure que eu comprei, Three imaginary boys, não tinha foto dos caras. “Pô, como são esses caras?” [ risos ] Fiquei imaginando os caras uns três anos até ver uma foto numa revista gringa. “Olha o Cure, olha que legal! Até que enfim!” E aí ficava tudo lá e cada um pegava um pouco. Tanto que para o programa doKid Vinil muita coisa saía dessa discoteca. O Kid era da nossa turma. Ele tinha muita coisa também.
Tacioli – Ele era mais velho.
Clemente Um pouco mais velho, o Antônio Carlos. Tinha as tardes de futebol. Todo mundo jogava bola bêbado e de jaqueta de couro. [ risos ] O Kid não jogava. Mas os discos ficavam lá. Às vezes ele pegava um disco pra tocar no programa de rádio.
Tacioli – Clemente, você…
Clemente – Estou muito prolixo hoje. O papo vai pra lá, volta…
Tacioli – Não, mas é isso mesmo, vamos costurando.

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