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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 15/29

A briga (do punk) começou por treta de mulher

Dafne – Esse momento da ruptura, da queda e da quebra do punk deve quanto às bandas da capital e do ABC?
Clemente – (As bandas) não se bicavam; havia uma divisão mesmo. A gente conseguiu juntar as bandas de São Paulo. As do ABC foi um trabalho. Pra fazer oComeço do fim do mundo tiveram que ser dois dias com dez bandas de São Paulo e dez bandas do ABC. Foi difícil. Tive que convencer cada gangue de São Paulo, falar “Meu, os caras do ABC são punks como você. O cara mora na puta que pariu, é fodido como você, entendeu?” E eu ia pra lá, pro ABC, e falava: “Meu, eu quero que vocês venham pra cá, mas venham aqui pra tocar, tocar com a gente, porque a gente é igual a vocês”. Os caras achavam que a gente era playboy porque morava na cidade, usava jaqueta de couro de verdade, né? Os caras usavam jaqueta de plástico fodido. Então, havia essa rixa braba, sabe guerra de torcida? Igual. Quando juntava era assim: 200 caras pra um lado, 200 pro outro; era guerra, briga de torcida mesmo.
Dafne – Mas fora essa diferença geográfica, havia uma diferença de formação musical?
Clemente – Sim. Havia diferença comportamental. Eles se achavam mais proletários do que a gente, porque pegavam trem e a gente era da periferia de São Paulo. A gente tinha acesso a um monte de informação e achava eles um bando de brucutu que não manjava nada de música. Então, a gente ia pra lá, ganhava as minas deles e eles ficavam putos. [ risos ]
Dafne – Tá explicado, porra!
Clemente – Em São Caetano tinha mulher pra caralho, cara! Quando a gente ia pra lá era festa; os caras queriam matar a gente. Na verdade, a briga toda começou por treta de mulher.
Dafne – Como sempre.
Clemente – Como sempre. “Ah, pô, mina aqui…”
Dafne – Ou falta ou excesso de mulher…
Clemente – São Paulo não tinha mulher. Lá era uma maravilha. A gente ia pra lá e as minas: “Pô, vou ficar com esses caras!”
Almeida – Ficar com os estrangeiros…
Clemente – Ficar com os estrangeiros. Os caras tinham jaqueta de couro legal, tomavam banho, tal. Os caras de lá não. “Punk não toma banho…”. Vá se fuder, cara! Diferenças de interpretação do punk rock. [ risos ] E aí, caralho, saía treta, não tinha jeito, né, cara?! Mas eu chegava lá e falava: “Meu, não vou sair daqui vivo.” Uns lugares… “Então você quer mesmo apaziguar a coisa, quer paz mesmo? Venha no nosso som.” “Claro, se vocês me convidarem, irei.” [ risos ] Cara, um lugar que não tinha pra onde correr. Se saísse uma briga, fodeu, não sabia pra onde ir.
Dafne – De casa eram uns dois dias.
Clemente – De um trem fazia a baldeação pra outro trem, um jegue e vamos embora. Mas foi isso que fez com que pudesse rolar o Começo do fim do mundo. Que fez com que pudesse ter lá 3 mil punks lá dentro, que fez com que pudesse ser um dos maiores festivais punk do mundo, pelo menos na época, entendeu?
Almeida – Isso teve repercussão fora daqui?
Clemente – Teve! Saiu no Maximum Rock”n”Roll, de Nova York, que era um zine que falava da cena mundial. Mesmo sem internet, sem nada, a gente se correspondia com os punks do mundo inteiro. Tudo via correio. Então,havia os punks da Polônia… Era engraçado. Os caras ainda gravavam pela gravadora estatal, que era comunista. E eles: “Aí, meu, manda café pra nós”. “Vamos mandar uns cafés.” E os caras mandavam uns discão, os discão da gravadora estatal, que tinha aquele buracão ainda assim. “Pô, meu, como ouvir isso?” [ risos ] Mas era muito legal. Os punks da Finlândia… Tanto que fiz um show agora e tinha um finlandês lá, um cara meio branco pra caralho, loiro e tal. “Porra, do caralho!”, e falando português. Porque finlandês e português são línguas fáceis: para quem fala português, aprender finlandês (é fácil). Por exemplo: “Paska”, que é merda, é p-a-s-k-a, você aprende rapidinho, né? E aí o cara aqui no Brasil: “Pô, o show de vocês e dos (Garotos) Podres, de 81… Ouço vocês lá da Finlândia e não-sei-o-quê.”. “Caralho!” [ risos] E ele: “É bom mesmo”. “Pô,obrigado, cara”. A gente se correspondia como mundo inteiro.
Tacioli – Mas em inglês?
Clemente – Inglês, tosco ainda, né, cara? “Me want your vinil.” [ risos ] “Do you want my vinil?” [ risos ] A gente saiu em duas coletâneas na Alemanha. O Grito suburbanofoi lançado na Alemanha com o nome Volks Grito. Saímos em uma outra coletânea chamada Life is a joke, que é uma coletânea com bandas da Espanha, de tudo quanto é lado. E isso numa época em que o rock brasileiro ainda tava… Todo mundo tocando lá Napalm. E o Jello Biafra, na sua coluna no Maximum Rock’n’Rol, pôs o nosso compacto em sexto lugar. Tanto é que, quando ele veio pro Brasil em 92, na Eco92, tocou com o Sepultura, e chamou a gente no camarim. Falou: “O Clemente, o Fábio, o Redson. Pô, quero falar com os caras!”. A gente se correspondia. Aí fomos lá. E foi engraçado, porque a gente tentou entrar no camarim e não deixaram. “Porra, a gente conhece o cara faz tanto tempo.” Era um pessoalzinho da MTV. Aí nós lá no bar – eu, o Redson e o Fabiano -, aparece um segurança: [ fala com voz grave e empostada ] “Por favor, o senhor Biafra mandou chamá-los”. [ risos ] “A vingança!” Entramos no camarim. “E aí?! Do you want my vinil?” [ risos ]
Dafne – Do you remember my vinil?
Clemente – “Oh, Yes! Good, very good!” O legal do punk era essa teia, e essa era a idéia… Por isso que a gente acreditava tanto que a revolução ia acontecer na semana que vem, porque havia uma teia mundial de jovens. O punk proporcionou de novo uma linguagem comum pra jovens do mundo inteiro, e isso é do caralho, né? Essa coisa de você se comunicar com um monte de culturas diferentes.

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