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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 13/29

O punk propiciou o nascimento do rock paulista

Tacioli – E nessa época, nos anos 80, musicalmente havia na cidade não movimentos organizados, mas o que depois se chamou de vanguarda… Como era essa convivência?
Clemente – Em 79, quando a gente ouviu o disco do Arrigo, o Clara Crocodilo, a gente pirou. Do caralho! Um disco que acompanhava a gente nas saídas. Era um disco que a gente adorava. Tudo o que tinha mais porrada, uma linguagem mais forte era com a gente mesmo. A gente não era…
Tacioli – Exclusivista?
Clemente – Pelo contrário, a gente gostava e íamos aos shows. Lembro até hoje do último festival da Tupi o Walter Franco cantou “Canalha”. A gente estava lá tentando entrar. Não conseguimos, mas queríamos ver o Walter Franco cantar “Canalha”. É do caralho essa música! Lembro que lotou e os bombeiros jogaram água, já que muita gente queria entrar. Rolou a maior briga lá fora para entrar no Anhembi. E bem a hora em que a gente estava chegando. “E agora?” E os punks em gangue têm aquele espírito: “Vamos entrar, vamos dar a volta”. “Não nos deixam entrar, vamos invadir!” Fechamos a jaqueta de couro e… Tinha o Alemão, não sei o que ele fez, pulou uma janela (…) Mas a gente sempre teve proximidade, sempre ouviu, gostou. E não era uma coisa repetida, cada um tinha uma praia. E a gente sempre respeitou. Isso era legal no começo do punk. Quando o punk paulistano ficou mundialmente conhecido em 82, na verdade era a segunda geração, que já chegou ouvindo punk para fazer punk. A minha ouvia rock, ouvia um monte de coisa pra fazer punk. Então, se você pegar Cólera, Inocentes, Olho Seco, todas fazem punk rock, mas elas não têm uma coisa a ver com a outra. Cada uma tem uma formação diferente… Depois é que vem o estreitismo e todos os estereótipos. É o que eu chamo de punk burro. “Eu sou punk, punk, punk, porque o punk…” O cara não ouve nada, não gosta de nada, não gosta de punk, então. O punk ficou chato, né? E aí que a gente sai. [ ri ] Tanto que na minha gangue a gente não ouvia somente punk, ouvia muito ska, muito rockabilly, ou seja, ouvia Straycats pra caralho, ouvia psycobilly, ouvia mpb, ouvia Arrigo Barnabé, ouvia tudo que tivesse que fosse legal, que tivesse uma coerência com a gente, independentemente de ser exatamente o mesmo estilo. Foi essa cena punk que propiciou que o rock paulista nascesse. Eles (os roqueiros) não falam isso, mas um dia a gente tem que falar, né? Por exemplo: quando conheci a Sandra, das Mercenárias, ela tocava piano com a Eliete Negreiros. Eu fui no show do Arrigo com ela, quando até xinguei o Arrigo. [ ri ] Estava muito chapado. Foi um show no SESC Pompéia. O cara começa o show tocando uma máquina de escrever. “Tec, tic, tec…” E eu esperando o Clara Crocodilo. “Tec tic tec”. “Que saco! Cadê a banda, cadê todo mundo!” [ risos ] “Esse cara tocando essa porra dessa máquina de escrever!” [ risos ] Chapado e falando alto. Ele olhou do palco… E eu “Vá se fuder, vou quebrar você!” [ risos ] Aí a Sandra: “Não, não, não! Estou tocando com a Eliete, que abriu o show”. “Ah! Então, tá bom.” Quando fui na casa da Sandra e ela me mostrou os seus discos, falei: “Ah, a única que dá para ouvir é essa Patti Smith e essa Ninah Hagen. Porque você não ouve essas coisas aqui e tal…”, e comecei a apresentar (outros sons). Aí, anos depois, ela montou as Mercenárias. Conheci o Miguel Barella, do Agentss, que foi em casa num ensaio. Ele disse: “Pô, do caralho, vocês são tipo Devo. A gente adora Devo!”. [ Toca a campainha do Showlivre, no andar de cima ] A gente sempre teve uma relação muito intensa com música desde o começo, de procurar coisas diferentes, de ir atrás de gente que investia em coisas diferentes. Não no óbvio. Sempre foi uma coisa alternativa, independentemente de vender ou não, a gente gostava da música. E é claro que isso se manteve. Então, lembro do primeiro show do Agentss no Carbono 14. Pra mim foi um dos melhores shows que eu vi. Eu estava lá, o Gordo… Lembro que o povo estava todo no chão, sentado, cabeludinho, Libelu total. [ risos ] Olhando a banda “devóide”! Eu e o Gordo olhamos: “Ô, gente, não é assim que se ouve esse tipo de som. Vamos levantar e dançar!” [ ri ] Aí virou uma puta festa, foi um puta show, entendeu? E o fato de termos lançado o Grito suburbano, que foi um dos primeiros discos. Isso mostrou muita gente o famoso “faça você mesmo do punk”, você também pode fazer, vá e faça! O rock paulista que veio depois deve muito à essa cena punk que começou na periferia. Na verdade, os caras não manjavam nada. Conheci todo mundo antes de virar a “inteligentzia” do rock nacional, de escrever na Bizz [ ri ]… Os caras ouviam Fafá de Belém e eram da Libelu! [ risos ] É sério! Eles: “Conheço todos esses músicos”. Depois que a gente deu a letra, né? “É por aqui”, (dizíamos a eles), aí os caras conheciam um monte de coisa, e com grana é tudo mais fácil.

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