gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 12/29

O centro de SP se tornou o nosso habitat

Tacioli – Clemente, você falou muito do cara que curtia o Peter Frampton, o bem-cheiroso…
Clemente – O bundengo… [ ri ]
Tacioli – que ele se dava bem com a mulherada… Como era a relação das mulheres com vocês, porque sempre tinha muito homem?
Clemente – Horrível, né? Show punk eram 50 homens e uma mina. Era uma bosta! Por isso que saía briga. [ risos ] Não tinha nada o que fazer, não tinha mulher para xavecar, briga… Aí em 81 começam a aparecer as minas punks. E as bandas com as minas, que era legal, coisa que o punk trouxe isso para o rock and roll. O Brasil, na década de 50, foi um dos poucos países em que havia uma cantora de rock. Nos Estados Unidos era uma coisa muito machista: Elvis Presley, Chuck Berry… Não tinha uma cantora. Todas as minas estavam na platéia. Aqui nós tínhamos a Celly Campelo. E o punk proporcionou a volta das meninas para o rock and roll.
Tacioli – Dá para ver o punk de uma ótica machista?
Clemente – O rock and roll é machista porque nasceu machista. E vai aprendendo a não ser. A gente é machista. [ ri ] Não dá para negar. A gente tenta não ser, mas você já nasce machista.
Tacioli – E a relação…
Clemente – Falei pra caralho. Vocês foram lá no fundo…
Tacioli – Mas é isso. E a cidade de São Paulo, o centro – você que falou bastante da periferia – como pontuava a música?
Clemente – Essa consciência de virar um movimento comportamental, político, social levou a gente para o centro, com punks de todos os bairros. E a gente se encontrava na São Bento. Então mudou a relação. Antes a gente vivia no bairro. A gente saiu do bairro e começou a se encontrar no centro da cidade. Abriu a Punk Rock Discos, então a gente freqüentava a Punk Rock; freqüentava a São Bento porque tinha uns shows de rock, isso em 75 até não sei que ano, mas era o lugar onde os roqueirinhos freqüentavam. Então, sempre tinha show lá. E os punks começaram a freqüentar e a estragar a festa dos caras, claro. E esses dois pontos de encontros que marcaram. E até os sons de fita mudaram para o centro. O templo do rock era no Bariri, no centro, aonde íamos à pé. Tudo ficou mais centralizado. Todas as gangues, de todos os lugares, iam para esses pontos. Elas começaram a conviver mais pacificamente.
Tacioli – E pra você, Clemente, musicalmente o centro de São Paulo lembra o quê, onde?
Clemente – Eu sempre vivi no centro porque meu pai trabalhava no centro. Sempre estava na loja dele, ficava com ele…
Tacioli – Onde ficava a loja dele?
Clemente – A primeira ficava na Praça da Sé/Santa Ifigênia, sempre no centrão. Tinha uma loja dele que era na Capitão Salomão, em frente à Igreja da Santa Ifigênia. Eu vivia ali, estava acostumado com o centro, com os caras as lojas, de conhecer todo mundo, o puteiro. Você tinha uma relação com o centro; não era somente um lugar de passagem. E fui office-boy, e office-boy atravessa a cidade. Você tem uma relação diferente… Quando era criancinha e ia para a cidade era estranho. Não era o seu lugar. O seu lugar era o bairro. A partir de um certo momento, o seu lugar é no centro, porque você conhece as ruas, sabe onde vai comer legal, onde vai beber, onde encontrar os seus amigos, se divertir, os cinemas, tudo… Então, essa relação com o centro da cidade ela foi só crescendo, ficando mais intensa…
Dafne – E essa relação também alimentou a música?
Clemente – Sim.
Dafne – Andar no centro…
Clemente – Sim, andar no centro… Sua música é mais cosmopolista, ela fala de sentimentos… Quando você mora na periferia, você vê a cidade longe. Você está indo embora? [ pergunta para uma das funcionárias da Showlivre ]
Funcionária – Estou.
Clemente – É só encostar a porta. Tá bom?
Funcionária – Falou pra vocês. Tchau!
Clemente – Tchau, tchau! Então comecei a fazer parte da fauna do centro. Então vivia mais no centro que no bairro. A gente ia para o centro e ficava. Voltava para o bairro para dormir. A partir de um certo momento, o centro se tornou o nosso habitat.

Tags
Clemente
Inocentes
Plebe Rude
Punk
de 29