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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 11/29

A discoteca foi a idade média do rock brasileiro

Tacioli – No começo existia essa vontade de fazer parte de uma gangue.
Clemente – Na verdade, no começo era a nossa turma, que estudava no mesmo colégio, no mesmo bairro, a gente ia nos mesmos lugares. Não tinha isso de “Vamos formar uma gangue”.
Tacioli – Era uma turma.
Clemente – Era uma turma que andava junto. Quando chegou a discoteca – que foi a idade média do rock brasileiro -, lembro que o Casa das Máquinas fazia um sucesso estrondoso, aí eles se envolveram naquela briga de trânsito e mataram um cara na porrada… Meu, acabou o rock! Não tinha mais show. O Made não fazia mais show, a Rita Lee não fazia mais show… Uma bosta! Então a molecada ficou “E agora?”. Foi aí que a gente começou a montar as bandas. “Não tem quem faça, a gente faz!”. Aquela coisa do bairro também acabou, assim como o rock, que saiu de moda. E todo mundo ouvia discoteca. Na escola todo mundo era roqueiro. O cara que curtia Peter Framptonera tão roqueiro quanto eu que curtia Stooges. Claro que a gente o chamava de “bundengo”, e a gente era mais barra pesada.
Dafne – “Bundengo”?
Clemente – “Bundengo”. [ risos ] Era todo bonitinho, as menininhas queriam sair com ele, tinha um carrinho, meio hippie, [ canta ] “Liberdade é uma calça velha / Azul e desbotada”. E nós uns puta maloqueiros que compravam roupas no lixão. [ risos ] Roupa do exército americano todo furado à bala. [ ri ] E esses caras começaram a dançar discoteca. “Ah, lá tem mina!” E a discoteca virou uma coisa odiosa pra gente. Uma bosta! Não tinha show, não tinha nada. Então você tinha de atravessar a cidade para ir num som de rock, num show, que não tinha muito, mas era mais “som de fita”, como a gente chamava que, traduzindo, era um grande baile de DJ. Tudo fita-cassete. Fazia a seleção dele e a gente delirava. E quando você começa a atravessar a cidade, você começa a correr perigos. Imagina você parar num trem, descer no Limão, pegar um ônibus e chegar na Vila dos Remédios, um lugar em que nunca foi? E lá um salão com outros caras, outros roqueiros, e chega aqueles 50 caras do bairro do Limão. Entendeu? Aí começou o espírito de guerra. Ou a gente andava, brigava e se defendia junto ou apanhava todo mundo. Mexeu com um, mexeu com todos. Aí é que começou essa história de gangue. Lembro quando a gente chegou um salão, o pessoal da Carolina, o da Vila Palmeira, os Ostrogodos, que eram uns caras mais velhos, nossos ídolos que andavam de jaqueta de couro, como os Hells Angels. Eles chegavam em um lugar e tudo parava: “Os Ostrogodos chegaram!”. Eles jogavam as jaquetas de couro no chão e formava uma pilha. Ficava bem no meio do salão. [ risos ] Vai pisar! [ risos ] Bêbado! E todo mundo ficava assim [ de braços cruzados ]. Dançando. [ de braços cruzados ] Só que a gente cresceu e começou a cruzar com eles. Sei que fomos nesse salão e não teve som, a polícia fechou, alguma coisa assim. E todo mundo voltou. Dois ônibus lotados. Muita gente, todo mundo fumando dentro do ônibus. Aí descemos na Lapa. Meu, tinha uns 70 caras descendo a Doze de Outubro. Aí lembro que o Canal, um cara da gangue, pegou uma lata de lixo, subiu num poste e “Eu sou o Canal!”. E jogou a lata de lixo numa vitrine. Destruímos a Doze de Outubro, todas as vitrines. Noutro dia, no jornal: “Punks destroem a Doze de Outubro”. [ risos ] Sem noção total, mas era o espírito rock and roll!
Tacioli – Mas pergunto porque o punk perdeu muito com as brigas.
Clemente – Sim, mas essas brigas eram no início, com essas coisas de bairro, de atravessar a cidade. Pô, passava perto de bar de nordestinos, viam aquele bando de punks com jaqueta de couro, “Ah! Vamos bater!”. Ou você segurava uma onda, ou apanhava em tudo quanto é lugar que você ia. Havia esse espírito. Com o tempo surgiram as bandas e a consciência de movimento, de ser um movimento punk. Então as gangues começaram a se juntar, começaram os shows. O Restos de Nada começou a fazer show… “Você ouve o mesmo som que eu ouço.” Com o movimento punk, com as bandas, as brigas acabaram, apaziguaram. Já não fazia mais sentido. Só que fui uma mudança de status quo. O cara que era mais fudido na gangue já não era mais; o mais fudido era o da banda, o que tocava. [ ri ] Desse começo mais romântico eu até gosto, era uma coisa de molecada.
Dafne – Mas rolaram outras brigas.
Clemente – As brigas não tinham caráter regional, político, ideológico. Eram brigas de moleque, de uma turma de um bairro contra de outro. Quando o movimento punk começou a tomar forma como movimento mesmo, aí essas brigas prejudicaram. Foi uma bosta!
Dafne – O que deu a liga ao movimento foi a música.
Clemente – Foi a música. A minha segunda banda, Condutores de Cadáver, foi quem deu espírito de movimento. Quando o Restos de Nada ia tocar era foda ter público. “Ah! Gosto mais de banda gringa!”. Com as bandas de fora usavam a bandeira da Inglaterra, a gente – do Condutores – começou a usar a bandeira do Brasil em cima da jaquela. Três caras da banda tinham máquina de fotografia, tiramos fotos com as caras achatadas [ coladas ] e fizemos botom. [ ri ] Os caras: “Pô, que banda é essa? São vocês, né?!” É isso, a gente tem que fazer o nosso, porque chegou uma hora que a música do Sex Pistols não falava da sua realidade. É do caralho, mas alguém precisa falar da sua realidade. Aí eu tinha que escrever “Pânico SP”. Aí, com o Condutores de Cadáver, a gente começou a organizar festivais. Em 1980, organizamos shows nos três dias de Carnaval. Lembro da filipeta: “Torne esse Carnaval sem efeito curtindo o punk rock lá na Gruta.” Tocou o Condutores, o Cólera – que surgiu em um ensaio dos Condutores -, o Vermes e uma banda de roquezão básico, a Cetro. E em três dias de Carnaval. Foi do caralho! E isso virou um tipo de evento legal. Depois o Condutores teve a proeza de fazer um show no Salão Beta da PUC. Aí o Kid Vinil já tinha o programa de rádio e anunciou o show…

Tacioli – Ele já era como Kid Vinil?
Clemente – Já como Kid Vinil o Antônio Carlos do nosso bairro. E quando anunciou o Condutores conseguiu reunir 600 punks de vários no Salão Beta. E reuniu por causa da rádio. “Pô, tem mais punks do que achávamos que tinha!” A gente não cruzava com todo mundo. Isso no fim de 1980. Aí vimos que o movimento punk existia. Aí o Condutores acabou e nasceu o Inocentes, em 81, em uma outra realidade. Quando começaram os famosos Gritos Suburbanos. “Vamos reunir as bandas e fazer shows com todo mundo junto para atrair a rapaziada, percorrer os bairros. Começou lá em São Miguel, na Zona Leste, com todas as bandas lá. Mas a polícia invadiu e acabou todo mundo em cana. Mas o movimento, esta cena alternativa no Brasil começou aí, com as bandas. Aí, sim, neste momento, as brigas atrapalhavam.

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