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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 10/29

O Restos de Nada tocava um cover de Geraldo Vandré

Tacioli – No primeiro momento, o punk parece muito musical e comportamental. A partir de que momento as letras começaram a expressar a realidade? Teve isso?
Clemente – O punk nasceu no meio dos proletários. Uma das influências do punk brasileiro é a música estudantil: Paulo Cesar Pinheiro, Geraldo Vandré… [ risos ] (E graças à) maneira de escrever. Eu lembro que, nas festas que a gente fazia não era em uma casa noturna, porque não tinha isso. Era raro. Depois que a gente começou a usar os salões das sociedades de amigos de bairro, mas antes era na casa, no quintalzão ou garagem, com lona, ligava o stroble e o som no máximo, e os vizinhos… fodam-se. E um bando de louco dançando. E quando aparecia um compacto do Geraldo Vandré, era delírio total, todo mundo cantava junto. Não era brega como hoje. [ ri ] Tanto é que o Restos de Nada tocava um cover de “Para não dizer que não falei das flores”. Punk rock total! [ canta ] “Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não.” Era delírio total da galera. A gente gostava de Elis Regina pra caralho. A gente tinha identificação com essa MPB. Quando a gente começou a fazer música, já sentia o peso dessa situação da ditadura militar. Você saia na rua com mais de quatro já era um aparelho comunista. [ ri ] Era foda. Ser parado pela polícia na periferia, ser revistado, era coisa normal. Salão de rock ser invadido pela polícia e levar todo mundo para passar a noite na cadeira era normal. Tanto é que eu lembro de quando mataram os comunistas na Lapa, a gente soube pelo Afanásio Jazadi… Falaram que era uma reunião de uma quadrilha, mas a gente soube que era uma reunião do Partidão, dos guerrilheiros do Araguaia.
Dafne – Foi aqui do lado, né?
Clemente – Foi aqui na Lapa. E a Freguesia, o Limão do lado. A gente vivia na Lapa, porque era meio o centrinho. Em vez de ir para o centro da cidade, víamos para a Lapa comprar as coisas. Foi um choque! O punk gringo nasceu nas escolas de arte. A Patti Smith era poeta. Não tem essa pegada tão política quanto o brasileiro, porque aqui nasceu no proletariado. A relação foi diferente.
Tacioli – No Brasil ou mais em São Paulo?
Clemente – Mais em São Paulo. Em Brasília era mais classe média, Porto Alegre também. No Rio era mais misturado. Quando fomos pela primeira vez ao Rio notamos que tudo era mais misturado. No show tinha um cabeludo, um surfista e um punk um ao lado do outro. Aqui em São Paulo era inadmissível. O cabeludo que entrasse no show apanharia pra caralho. [ ri ] Era uma coisa de gangue no começo, gangue de bairro. Você vai para o bairro debaixo, apanha. Se sobe, apanha. Coisas que acontecem até hoje na periferia.

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