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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

parte 9/29

Virei punk por causa do Billy Idol

Dafne – Quando vocês fizeram as primeiras composições do Restos de Nada estavam ainda nesta fase rock-não punk?
Clemente – A primeira música que escrevi, que se chama “Restos de nada”, fala: “Nós somos a verdade do mundo / Somos o restos de nada / À noite nós vagamos por aí / Pra ver o que resta de vocês / Cuidado se você estiver só / Ao encontrar com um de nós”. Sei que tinha uma frase assim: “Nós somos apenas lobos solitários / E o nosso uivo é o rock and roll”. [ risos ] Ainda era da fase de transição, porque quando chegou o punk, eu desconfiava. Você abria a revista Pop e “Festa punk na Hippopotamus”. [n.e. Famosa casa noturna carioca inaugurada em 1977 e freqüentada por celebridades nacionais e internacionais ] Eu lia as matérias gringas e achava do caralho, “Sex Pistols aprontam pra caralho!”, mas ao abrir a Pop…
Dafne – Aparecia mais moda punk?
Clemente – Aparecia mais modinha: “Como você enfiar alfinete na orelha”. Então ficou a metade mais ansiosa e mais ligada nas coisas da turma virou punk. E a outra metade, que era eu, o Douglas… “Parar de ouvir Justin pra ouvir esses caras que saem na revista Pop, festa na Hippopotamus, punk? Isso é moda.” Por incrível que pareça, comecei a levar o punk a sério mesmo quando o irmão do Marcelino, que depois foi o primeiro baterista do Inocentes, traduziu a letra de “Your generation”, do Generation X, que é a banda do Billy Idol. Virei punk por causa do Billy Idol, em suma. [ risos ] “Puta, é isso, é isso, tem a ver.” Eu conhecia as bandas, mas não tinha parado pra prestar atenção nas letras.
Dafne – Mas você já tinha ouvido discos?
Clemente – Já, já. A primeira audição de Sex Pistols para a nossa turma foi hilária. Alguém comprou o compacto de 12 polegadas, 45 rotações, importado – porque a gente só gostava dos importados – e a turma toda “Vamos ouvir esse tal de punk, de Sex Pistols”. Colocaram o disco e ninguém notou [ canta como se estivesse em rotação lenta ]… “Esse tal de punk é diferente mesmo, né?” [ risos ] Até que chegou o Charles que falou que estávamos ouvindo na rotação errada, mas ninguém falou nada. A gente estava acostumado com solos, mas não foi um choque, porque era uma tendência, era para onde estávamos indo. O tipo de roqueiro que gostava de Stooges, New York Dolls, rock dos anos 50, era contra essa boiolice do rock, eram os mesmos caras como oRamones, que ouviam as mesmas coisas, que estavam com as mesmas ansiedades. Aquela foto clássica do Ramones, de camisetas, era o visual da minha turma. Cabelo comprido, porque tudo mundo ainda era roqueiro, black no caso, jeans, tênis, camiseta listrada e jaqueta de couro, esta pensando exatamente nos anos 50. Se não tivessem inventado o punk rock nos Estados Unidos, a gente teria inventado aqui. Então, quando vimos o Ramos, nós nos vimos espelhados. O punk inglês que estourou para o mundo era uma reinvenção do punk americano. O Malcon Mclaren, com a mulher dele, que era estilista, que geram uma outra coisa, muito legal, mas primeiro contato com a coisa autêntica do punk a gente já tinha, que era aquela coisa do Ramones. Tanto é que quando comprei o primeiro disco do Dictators, que é uma banda da época do Ramones, também de Nova York, jaquetas de couro, com um puta black, olhei e falei: “Tem um cover do MC5? Não! Essa banda deve ser legal, não é possível.” [ ri ] E era legal. Mas começaram a falar do punk depois que ele foi para a Inglaterra. Não é porque estou na Plebe, mas eles falam “Estávamos em Londres em 1978 e vimos a coisa toda”, mas a gente estava acompanhando tudo daqui mesmo. Saía alguma novidade, vínhamos na Santos ou na Wob Bop pra comprar. A gente sabia tudo o que acontecia na cena porque esse espírito do Valtinho de colecionar coisas raras passou para a nossa turma, de ir atrás procurar. E sempre alguém trazia alguma informação nova.

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