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Entrevistas de música brasileira

Clemente

Clemente. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Clemente

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Punk à moda da casa

Clemente ri bastante. E olha, é um riso gostoso, daqueles que contagiam. Pode ser a lembrança de uma bobagem de moleque ou uma piadinha com alguém do meio musical. Difícil imaginá-lo de cara fechada, sisudo; mas foi esse garoto de 45 anos, nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, que escreveu há pouco mais de 20 anos que “nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”. Pânico em São Paulo, aliás, no Brasil inteiro.

Ele devia rir na época, claro. Talvez tenha dado até boas gargalhadas depois de chegar ao fim desta sentença bombástica e seminal para o movimento punk brasileiro. Mas ele, e os amigos que o acompanham/acompanharam na saga da banda Inocentes, levou o negócio todo muito a sério. Gritou, em alto e furioso som, “É que a justiça sempre tarda / E ainda pode falhar / Não posso acreditar na sorte / Não tenho tempo pra esperar / Os olhos não vêm / Mas a carne sente / Que a raiva vai nos salvar”. Não engoliu seu descontentamento com os rumos caóticos que o movimento tomou durante a década de 1980. Enfrentou com sangue nos olhos as acusações de ser traidor dos punks e a dureza do início da década de 1990 para o rock brasileiro. Seguiu sério, mas sempre com bom humor.

Extremamente articulado, independente e agregador, Clemente deixou claro durante a conversa com o Gafieiras que sua curiosidade por tudo, principalmente pela música, o transformou e o fez ser quem é. Há anos trabalha no site Showlivre, apresentando programas e fazendo entrevistas sobre os mais variados gêneros/artistas, enquanto continua produzindo com o Inocentes e, mais recentemente, com a Plebe Rude (uma união dos sonhos do rock nacional). E mais punk do que nunca, afinal continua fazendo, cantando e falando ele próprio tudo o que quer.

A entrevista acabou e em seu lugar surgiu uma sede e uma fome daquelas ferozes e noturnas. Decidimos, Clemente inclusive, ir até o Lapinha, bar daqueles honestos na Lapa paulistana, para matar o que estava nos matando. Dito e feito. Clemente continuou rindo, a gente também, mas aí não era coisa de gravar.

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