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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 8/20

Em João Pessoa, eu era cult. Em São Paulo, nordestino

Tacioli  Você disse que não foi compreendido por juntar o Jaguaribe com as canções. Falta essa compreensão?
Chico  Não sei, já tem bastante gente que entende isso e não só em mim. Tem outros artistas – como o Pedro Luís, o Paulinho Moska, o Lenine – que trabalham com isso. No meu caso, há muitas coisas que parecem ambíguas e que não são. Elas são muito claras pra mim. Desde a coisa da sexualidade. Tem gente que acha que sou mulher, e eu sou homem, entendeu? [ri] Já fui confundido. O cara fala, “Porra, você é do Maranhão!”, também já acharam que sou da Bahia, e sou da Paraíba. Lancei esse disco agora que tem a música “Respeitem meus cabelos, brancos”. As pessoas ficaram meio chocadas, “Nossa! O Chico, tão bonzinho!”. Sou bonzinho, mas não sou bobo. Poxa, o cara que fez “À primeira vista”, “Onde estará o meu amor”, que são canções de amor lindas, foi o mesmo cara que fez “Dá licença”, que fala “Fome / Barriga do homem não é sua casa / Dor / Peito do homem não é seu apart hotel”, ou aquela do “Grisalho / O olho do espantalho / Vê as maldades do mundo / E diz: caralho”. Vivemos em um mundo que separa muito as coisas, como se a gente não pudesse colocar as muitas forças que existem dentro de nós para dialogarem e criar coisas novas. Se é para ser somente experimental, não quero. Se é para ser somente romântico, não quero. Se é para ser somente nordestino, não quero. Quando cheguei a São Paulo, em 1985, tentei tocar nos lugares cult da cidade. Na época, havia o Mambembe e aquele no Itaim… Espaço Off. Levei as fitas, mas eles falaram que eu era muito nordestino para o lugar onde tocavam Os Mulheres Negras, as coisas cult da época. E eu me achava supercult lá em João Pessoa. [ri] Aqui eu não era mais cult, era nordestino. E quando eu ia tocar nos lugares onde tocavam nordestinos, diziam que eu era muito difícil. [risos] Cheguei a São Paulo numa época em que existiam a música cult e a música nordestina, que era o mainstream da época, com Elba Ramalho, Zé Ramalho, Alceu Valença. Eles eram as Madonnas daquele tempo. Mas já existia uma turma nordestina que não estava na crista da onda, como o Xangai e o Elomar, com quem minha música se relacionava também. Então, eu não conseguia tocar nos lugares porque minha música era “nordestina”, o que era considerado hegemônico na época. Não conseguia fazer um programa chamado Nas quebradas do sertão, do Mano Véio e Mano Novo, que são caras que trabalham com forró. Ia pra lá, acompanhava uns amigos na viola, viola de 10 cordas, e deixava uma fitinha. Ia com o Jarbas Mariz, que agora toca com o Tom Zé, e deixava uma fitinha. Aí os caras mandavam recado, “Ô Jarbas, fala praquele seu amigo que a música dele não cabe aqui no nosso programa. A gente gosta de Gilberto Gil, mas Gilberto Gil não é nordestino. A gente gosta de Raul Seixas, mas Raulzinho não. Ele é outra coisa”. Mas ninguém sabia onde colocar essa outra coisa. Então, o que eu fiz? Ao mesmo tempo que eu tinha muito de nordestino, eu tinha também aquela coisa de atitude do Arrigo [Barnabé], do pessoal da vanguarda paulistana. Por isso que vim morar em São Paulo e não no Rio, porque queria estar perto de Arrigo, do Itamar [Assumpção], do Luiz Tatit, depois de Zé Miguel Wisnik, que não era muito conhecido na época, e da Cida Moreira, da Tetê Espíndola. Eu pensava, “A música desses caras é mais difícil que a minha. Se há espaço para as músicas deles em São Paulo, vai ter pra minha também. Vai ser bico!” [ri] Isso foi um grande equívoco, porque não foi fácil. O espaço do alternativo já estava preenchido. Tinha uma moça que trabalhava no Crowne Plaza. Levei uma fitinha e um book com um monte de fotos e figuras e pra me diferenciar. Fiz em folha dupla, um monte de coisa, e ela nunca me programou. Até que fui tocar na Alemanha em 1991 – depois de 6 anos ralando. Tinha uma amiga minha que trabalhava numa associação Brasil-Alemanha e que me convidou, “A gente vai pagar pelo menos a sua passagem pra fazer dois shows aqui. Um é de graça e o outro é pago pra compensar a passagem.” Aí, eu fui. Trabalhava na época na revista Elle e na Fundação Oncocentro.

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