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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 7/20

"Porra, os caras são os punks da caatinga", disse o Arrigo

Tacioli  Como foi a digestão de seu sucesso pelo Jaguaribe Carne?
Chico  Ele digeriram bem. Engraçado, foi mais fácil com eles do que com muita gente lá na Paraíba. Quando fazíamos nossa música experimental na Sala Preta do DAC, Departamento de Artes e Comunicação, pegávamos um monte de papel e ficávamos os rasgando no microfone. O pessoal achando um saco. “Obrigado!” [risos] Todo mundo ficava puto. E aí, essas mesmas pessoas que ficavam com raiva, que não entendiam e que achavam que aquilo era uma enganação… Mas desde cedo as pessoas me olhavam como o cara que fazia música no grupo, o cara que fazia as canções. A mãe do Pedro sempre falava, “Pedrinho, tá vendo esse menino de Catolé do Rocha? Cê tem que fazer que nem ele, cantar que nem ele, fazer as músicas que nem ele!” [risos] Aí ele, “Não, mamãe, ele faz a dele, eu faço a minha, e a gente junta e aí que fica legal!” Então, mesmo nos shows do grupo que era experimental, havia um instante em que cada um mostrava suas canções, suas composições. Já se via que meu caminho era esse de uma música melódica, que tratava de amor e de questões sociais. Eu já sabia que ia ser assim, mas o Pedro Osmar, quando me convidou para o grupo, mandou um recado por meio de um amigo meu de Catolé do Rocha, o Caturité. “Fala praquele menino lá de sua cidade que, quando ele parar de imitar o Ednardo, eu quero fazer umas músicas com ele”. [ri] Lembramos disso agora em João Pessoa. Eu amava o Ednardo e o amo até hoje. Minha felicidade foi ter feito uma música com o Ednardo [n.e. “Única pessoa”, faixa-título do CD de Ednardo, lançado pela GPA Music/Ouver Records, em 2000]. Fiquei muito contente com isso. Todo mundo tinha uma coisa com o Fagner – eu adorava o Fagner –, mas gostava de tudo, tudo do Ednardo. Porra, com 15, 16 anos, quando você gosta de um artista, você o imita. É inevitável. Então, larguei essa coisa ingênua quando conheci o pessoal do Jaguaribe Carne. Até veio uma negação do jeito de cantar. Eu cantava com melodias e o Jaguaribe era como se fosse a Libelú da música na época… Quanto pior, melhor! Então, quanto mais desafinado o violão, quanto mais rouco você tivesse… Inclusive, quando abrimos um show para o Arrigo Barnabé em João Pessoa, ele disse, “Porra, os caras são os punks da caatinga”. [risos] Ele ficou assustado com o negócio. Mas eu tinha essa coisa de cantar e gostar de melodia, de ser mais romântico. Mas durante muito tempo neguei isso, e quando vim morar em São Paulo eu não tinha mais o compromisso de viver com eles, de ser o Jaguaribe Carne. Eu já tinha o Jaguaribe Carne incorporado a mim e resgatei aquele cara que gostava de ouvir música na loja de discos. Tentei trazer isso para o meu trabalho, desde o Aos vivos, quando abri o disco com uma música à capela, um aboio, a canções… Ali tem “À primeira vista”, “Templo” e “Mama África”. Não me sentia mal com isso, pelo contrário, acabei me sentindo muito bem. Quando saiu o Aos vivos, as pessoas perguntavam se não era o Caetano Veloso… Porra, de novo, será que vou ter que cantar Jaguaribe Carne de novo! Mas não dava mais, já estava consciente que era outro. Eu não era o Caetano, nem o Ednardo, e nem o Pedro Osmar. O meu barato era juntar todas essas coisas. Tentei fazer isso em alguns discos. Por exemplo, o Beleza mano abre contando em alemão – “Eine / Zwei/ Drei” – e acaba com “Grisalho / O olho do espantalho / Vê as maldades do mundo / E diz: caralho” [n.e. De “Últimas palavras do anjo diluidor”]. Então, as pontas são puro Jaguaribe Carne e o meio tem essa música em que convidei o Thaide e DJ Hum, o Arrigo Barnabé, o Siba, do Mestre Ambrósio, o Lulu Santos. São camadas do que sou, do que gosto, do que quero ser. E isso acabou não sendo muito bem entendido pelo mundo da música popular. E no mesmo disco tinham canções de amor. Em cada disco tento… não aparar arestas, mas aperfeiçoar a comunicação desses elementos para as pessoas, porque música popular é comunicação. E a música popular de que gosto tem um percentual pequeno de informação e muito de redundância. Acho que toda música que você gosta e lembra… Se você pensar Beatles, 80% redundância 20% informação. Rolling Stones, Luiz Gonzaga… A música popular é assim, já a experimental é outra coisa. O Arrigo Barnabé é 80% informação, 20% redundância, ou 60% e 40%, se bem que é grosseiro ficar falando nesse termos, mas a música popular é assim, você a associa com uma coisa que já foi associada com outra antes.

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