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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 6/20

Eu achava que ser artista era como os Novos Baianos

Tacioli  Você ficou em Catolé até que idade?
Chico  Quinze, 16 anos.
Tacioli  Depois você foi para João Pessoa?
Chico  Isso.
Tacioli  E como foi essa passagem?
Chico  João Pessoa foi muito legal pra mim. Havia lá um grupo chamado Jaguaribe Carne, formado por dois irmãos, Pedro Osmar e Paulo Ró. Esses caras me fizeram ver coisas muito legais, porque eu achava – quando fui morar em João Pessoa – que o máximo era ser artista como os Novos Baianos. Aquela coisa meio cooperativa: todo mundo junto, joga bola, bebe, fuma maconha, tem uma mulher que é mulher de um e que fica grávida, tem filho, mas faz foto beijando outro. Aquilo era ser artista. [ri] Aquelas camisas do Flamengo… eu torcia pelo Botafogo. [risos] Eu achava aquilo lindo! O Moraes Moreira com o Davi, pequenininho, ensinando cavaquinho. E eu e meus amigos imitávamos isso na adolescência. As namoradas todas cabeludas e, ao mesmo tempo, havia um engajamento político. E quando fui morar em João Pessoa, conheci a turma do Jaguaribe Carne. Jaguaribe é por causa de um bairro da cidade, e Carne, pelo movimento antropofágico, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, modernismo… Eles eram uns puta artistas que faziam música experimental, recitavam poesia pornô na rua, faziam arte-postal se correspondendo com artistas plásticos suíços, dinamarqueses, alemães… Sabe essa coisa? Mandava-se um cartão pra que um interferisse um pouquinho; aí, mandava-se para outro, e por aí adiante. Isso tudo era novidade pra mim. Eles me mostraram música aleatória, música dodecafônica, música étnica, música dos índios do Xingu, Hermeto Paschoal em Montreux. E eles faziam mesmo. Eram superpobres. O Pedro Osmar morava em uma casa de taipa com um aparelhinho de som e os melhores discos que se podia ter: discos da ECM, gravadora alemã que trabalhou com jazz europeu dos anos 70 e 80, Codona, aquele grupo que tinha Naná Vasconcelos, Collin Walcott e Don Cherry… Ele tinha o Codona 1, o 2 e o 3 [n.e. LPs lançados, respectivamente, em 1978, 1980 e 1982, pela ECM]. Tinha também um Meredith Monk [n.e. Compositora, pianista e cantora nova-iorquina, 1942], que fazia música minimalista no piano, aqueles “lálálálálá / blim blim / lálálá / blim blim”. E eles ficavam, “Escute, isso é Meredith Monk. Escute, isso é Codona”. E eu ficava sentadinho ouvindo. Os caras disseram pra mim, “Você pensa que ser artista é ser doidão, ter namoradas e flertar com a namorada do outro? Pode ser também, mas o universo é muito mais amplo”. Fiquei muito admirado, porque eles eram pais de família, eram pobres, não usavam roupas muito loucas – usavam camisa de botão, normal. Sabe, olhando assim na rua você achava que era um homem do povo, um popular com um pacote debaixo do braço. Era isso. Mas quando eles faziam música ou a colocavam música pra você ouvir, era outra coisa. Eles me adotaram nesse grupo.
Tacioli  Você era o mais novo?
Chico  Era, tinha 16. O Pedro Osmar era 10 anos mais velho que eu. Ele fez 48 e, na época, já tinha tocado com Zé Ramalho e Elba Ramalho. Ele tinha chutado o show business. Ele foi para o Rio e tocou com essas pessoas, mas depois falou, “Isso é uma babaquice! Não quero isso pra mim! Quero fazer minha música experimental, não importa como vou sustentar minha família”. E o fato é que até hoje ele tem dificuldade pra sustentar a família, mas faz a música que quer. Criou uma coisa pra ele ali. Então, esse grupo me adotou e me mostrou coisas. Marcou o começo do que sou hoje… Ter personalidade, não ser vaquinha, não ser boiada da Ilustrada, sabe? A Ilustrada fala “Ô, ô!” e todo mundo “Ê, ê!”. [risos] Também porque havia o Folhetim. Lia a Ilustrada, mas também consegui ler o Folhetim, mesmo que não entendesse muitas daquelas coisas na época. A gente queria uma coisa mais intelectualizada ou, pelo menos, uma coisa mais autodeterminada, uma autogestão pra decidir o que a gente ia fazer. O grupo existe até hoje. Colaboro com eles, participo do disco deles e tal. Para o Pedro Osmar, para o Jaguaribe Carne, sou um braço deles no show business, na coisa mundana.

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