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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 5/20

Eu poderia ter sido um Fabiano, do Vidas Secas

Almeida  Chico, você era uma criança que não era pra ficar ali?
Chico  É.
Almeida  O que isso quer dizer? Você acha que sua família tinha um plano pra você?
Chico  Não sei se minha família tinha um plano, mas o fato é que eu era o mais novo de uma família de sete filhos, então eu já era tratado de uma outra forma. Desses sete, há somente um outro homem, que é o segundo da família. Meu irmão se meteu em política muito cedo. Em 69 já havia sido preso duas vezes por causa de movimento estudantil. Ficou preso uma época em João Pessoa. Voltou. Foi preso de novo. Aí, foi morar em São Paulo. Nessa época, eu morava em uma casa cheia de mulheres: cinco irmãs, minha mãe e uma tia que era mais velha que minha mãe, e que vive com a gente até hoje. Então, fui muito cuidado. De três pra quatro anos de idade, já soletrava e começava a ler. Eles acharam que eu ia ser um grande engenheiro ou médico. Lembro que já sabia ler quando entrei pra escola, que era na zona rural. Nessa escola havia uma placa da “Aliança para o progresso” [n.e. Programa polêmico do presidente norte-americano John Kennedy, que previa assistência econômica e estratégica aos países latino-americanos. Lançado em 1961, dois anos após a Revolução Cubana]. Era a escola do Seu Elízio. Nela estudava também minha irmã, que parou no 2º ano do primário. Acho que minhas irmãs todas estudaram lá. Aí, o professor me pegou ensinando a lição pra minha irmã que estava no 2º ano, e eu, no pré-primário. Ele disse, “Que é que cê tá fazendo aí, menino?”. Minha irmã, “Olha, Seu Elízio, ele tá lendo, tá me ensinando a lição”. Ele não acreditou, achou que eu tinha decorado. Pegou o livro e abriu em qualquer página, “Leia isso aqui!”. Eu li. Abriu outra. E eu li de novo. Ele foi ficando nervoso e eu fui achando que estava fazendo coisa errada. Quando ele disse que precisava falar com minha mãe, fiquei com mais medo ainda. “Preciso falar com Comadre Etelvina!”, que é o nome da minha mãe.
Fernando  “O que é que eu fiz?” [risos]
Chico  E ele foi falar com minha mãe. “Comadre Etelvina, seu filho não pode ficar mais na minha escola. Ele já chegou no limite do que eu posso ensinar. Ele precisa ir pra cidade e estudar no colégio das freiras ou em algum outro lugar.” Então, minha mãe e minha tia saíram pra ver isso. Fizeram um teste e disseram que eu estava adiantado em Português para o 1º ano, mas que eu ia sofrer com Matemática. Assim, acabei pulando somente o 1º ano. Nesse colégio de freiras estudavam somente as crianças mais ricas da cidade. Rico, quero dizer, filho dos médicos da cidade, do gerente do Banco do Brasil, dos donos das lojas. Ganhei uma bolsa e comecei a estudar lá, mas continuei com meus amigos da zona rural. Chegava da escola, fazia a lição, que era o tempo deles chegarem da roça, e a gente batia uma bolinha. Isso até me lembra uma música do João do Vale chamada “Minha história”, em que ele fala de uns amigos de infância e adolescência que ficaram trabalhando na roça, na terra dos outros, viraram pais de família, com dois, três filhos, e que ele teve o dom da música. É mais ou menos a minha história. Além do dom da música, eu tinha queda para estudar. Gostava de ler e tal. Também ajudamos meu pai na roça. Foi contra a vontade de meu pai que fomos para escola. Sete filhos! Ele pensou que a gente ia ajudá-lo e aconteceu o contrário. Tivemos que ser sustentados para irmos pra escola. E funcionou. No meu caso funcionou muito bem, porque fui estudando direto. As pessoas sempre foram me orientando sobre o que ler e o que ouvir. Atendia às recomendações, mas lia tudo, ouvia tudo. Imagine você com dez anos trabalhando numa livraria! Tinha lá Relatório Hite, com desenhos de útero, ovário… [n.e. Best-seller da ex-modelo e socióloga Shere Hite, lançado originalmente em 1976] Numa hora que não tinha ninguém olhando, ia lá ver os desenhos. [risos] A pessoa chegava e dizia que não eu podia ainda ler aquelas coisas e me colocava pra ler O menino do dedo verde [n.e. Obra do do francês Maurice Druon, publicado em 1957] . Quando sumia de novo, pegava De onde vêm os bebês?. [risos] Porra, esse livro é clássico, é um puta clássico! [risos] Dei muita sorte. Vejo hoje… Quando tem uma matéria na TV sobre a seca dá pra ver uns caras que têm 27 anos e são senhores, têm três ou quatro filhos. Eu poderia ter sido um Fabiano, mas o fato de ter lido o Vidas secas me aproximou mais do Graciliano Ramos que do personagem dele, entendeu? De você ser mais um sujeito da cultura que um objeto dela.
Tacioli  Na época você já tinha essa consciência ou era um negócio intuitivo?
Fernando  Havia esse desprendimento de sair de casa com oito anos de idade.
Chico  É, na verdade eu tinha sede de saber, de conhecimento, e não queria trabalhar na roça. Sol na cabeça e serviço pesado. Íamos ajudar meu pai, mas ia mais por diversão, por farra. Ele catava, sei lá, 30 ou 40 quilos de algodão e eu catava uns três. Aquilo não era serviço pra mim. E o meu irmão foi incutindo em mim um desejo de não ficar preso ali, de ser explorado e trabalhar no campo. Ele me apontou caminhos. Eu era 15 anos mais novo que ele e acho que todo mundo havia passado por coisas que eu não precisei passar. Então, minha mãe foi muito desprendida mesmo em me deixar ir. E, na adolescência, quando chegou a coisa de beber, fumar maconha… Todo mundo da minha turma fumava e eu não fumava, porque era como se eu tivesse um débito com essa confiança que minha mãe depositava em mim. Ela sempre falou umas coisas barra-pesada como “preto mas honesto”, “pobre mas limpinho”. Isso é punk! [ri] É como se tivesse um “mas”. Você é preto, mas… não seja ladrão.
Almeida  Uma compensação por esse estigma…
Monteiro  Já entrou no jogo perdendo.
Chico  É, ela falava assim, pelo menos é como entendi. “Se rolar uma confusão, todos esses seus amigos são brancos e filhos de fulano e fulano e fulano. Vai sobrar pra você. Então, você tem que estar muito direitinho pra não dançar!” O fato de ser negro e pobre já era uma fria. Mas o engraçado é que isso não me oprimiu. Não me tornei um negro servil… O fato de estudar de graça no colégio das freiras, fazia com que, de vez em quando, uma freira chegasse a mim e dissesse, “Olha, tome cuidado! Você sabe qual é a sua condição aqui dentro. Você estuda de graça, tem bolsa”. Quer dizer, os seus amigos podem fazer bagunça porque eles pagam, mas se você fizer bagunça, como você não paga, não vamos ter prejuízo em mandar você embora. [ri] E eu falava “Tudo bem, tudo bem”. Eu queria tirar o melhor daquele ambiente… Porra, eles ensinavam música. Tinha quatro pianos na escola, lá em Catolé do Rocha, interior da Paraíba! Tive de graça coisa que você paga muito caro hoje em dia aqui em São Paulo. Tive muita sorte e também muito tempo livre… As distâncias eras mínimas. Lá em Catolé havia uma coisa que se chamava “Festa universitária”. Eu devia ter uns 12 ou 13 anos de idade. Quando havia quaisquer dessas festas dançantes, você comprava o ingresso e ganhava um livro de graça, que era dessa loja em que eu trabalhava. Livros daquela editora, a José Olympio. Cada livro maravilhoso! Desde realismo mágico, o ciclo nordestino todo, José Lins do Rêgo, muita coisa mesmo… O coronel e o lobisomem [n.e. Romance de José Cândido Carvalho, de 1964], Ariano Suassuna. Tudo isso passava pela mão da gente e não era cul-tu-ra!
Fernando  Não tinha esse peso.
Chico  Ariano Suassuna era legal, mas do mesmo jeito que Zé Limeira, literatura de cordel na feira… Pra gente nada era importante demais, tudo entrava mais fácil.
Fernando  Como a música.
Chico  Isso mesmo. Acho que li mais dos oito aos quinze anos do que quando fui para universidade fazer Comunicação.

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