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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 4/20

Eu cantava música nacional no Supersom Mirim

Tacioli  E como você começou a fazer música?
Chico  Com 10 anos, quando tive meu primeiro grupo de música. Quero dizer, fui convocado para ser cantor de uma banda de garotos. Chamava-se The Snakes, depois Supersom Mirim. Mas os caras me chamaram… Tinha um que estudava comigo que era baterista, o Vanílson. Um loiro de óculos, filho de Dona Wanda, que era professora de música. No intervalo das aulas, eu ficava me exibindo para os colegas cantando “Ouro de tolo”, que tinha uma letra enorme [n.e. Composição de Raul Seixas que integra seu álbum Krig-ha, bandolo!, Phonogram, 1973]. Acho que eles prestavam mais atenção se eu sabia a letra do que se cantava bem. Cantava também “Canto das três raças”, que é do Paulo Cesar Pinheiro [n.e. Composta com Mauro Duarte, “Canto das três raças” é a faixa-título do disco de 1976 de Clara Nunes]. Essa também porque tinha uma letra enorme, [canta] “Ninguém ouviu / Um soluçar de dor / No canto do Brasil / Um lamento triste sempre ecoou”, e chega uma hora em que você não sabe mais se é o negro, o índio. E meu colegas ficavam lá me escutando aos brados. Então, veio esse meu amigo e perguntou se eu não queria tocar no conjunto deles. Fui lá ver. Era uma banda só de garotos em que a única coisa que fazia barulho de verdade era a bateria feita com latas de couro de bode. As guitarras tinham corda de náilon… Era mais para fazer pose. [risos] O pedestal do microfone era de cabo de vassoura. Aquilo pra gente era o máximo. Eu era o cara que cantava música nacional. O dono do conjunto cantava as internacionais tipo “Ben”, do Michael Jackson [n.e. Música do LP Ben, Motown, 1972], Bee Gees, e como tinha uma voz aguda, cantava também “Flores astrais”, do Secos e Molhados [n.e. De João Apolinário e João Ricardo, lançada no LP Secos & Molhados, Continental, 1974].
Fernando  E eles tinham a sua idade?
Chico  Eu era o mais novo e o menor, mas todos tinham mais ou menos a mesma idade. O mais velho devia ter uns 3 anos a mais que eu. A gente era chamado para animar festas em escolas. Tenho uma foto de uma apresentação nossa, do Trio Mirim, em uma Festa de São João. Porque havia o Supersom Mirim, que era com todo mundo, e fizemos o Trio Mirim, que era só forró. [risos] Tinha uma pandeirola de lata de doce – o fundo foi arrancado e ficou só a parte metálica com umas tampinhas de garrafa –, uma zabumba que a gente fez e um triângulo. Não havia sanfona. Tenho essa foto. Esse São João em que tocamos era do jardim de infância. [risos] Éramos os adultos ali. Para as crianças estava tudo bom. [risos] A gente cantou umas 15 vezes aquela música “Esquenta moreninha / Esquenta moreninha / Tem uma fogueirinha no meu coração”. O repertório era pequeno, devia ter umas cinco músicas. Então, repetíamos bastante. Foi uma iniciação bacana. Veio pra mim, junto com a loja de discos, uma coisa da música associada ao entretenimento e à alegria de cantar para outras pessoas. Foi um começo interessante.

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