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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 2/20

A gente usava o Araçá azul, do Caetano, pra passar trote

Almeida  Chico, fale de seu ambiente familiar quando você era criança. Como a música foi chegando? Ela já estava dentro de sua casa, com os seus pais?
Chico  Somos sete filhos. Meu pai, agricultor. Minha mãe lavava roupa pra fora e cuidava da casa. Isso tudo lá no sertão da Paraíba, em Catolé do Rocha, uma cidade que fica a uns 430, 450 km de João Pessoa e que, curiosamente, fica à mesma distância de Natal e de Fortaleza. Fica bem num delta do sertão. O meu pai brincava Reisado, que é um Auto de Natal do Nordeste e que começa em novembro e vai até 6 de janeiro. Tem vários personagens que também são conhecidos no Bumba-Meu-Boi, como a Catirina, os Papa-Angus, meio vaqueiros, meio palhaços. Esses Autos têm esse lado cômico, mas também têm um lado sério, porque têm uma corte com um Rei, que é meio Rei, meio dono de fazenda. E os vaqueiros, que são meio palhaços os quais, na verdade, são os Papa-Angus. E todo ano a família do meu pai – os homens da família – se reunia para fazer essa brincadeira cada dia no terreiro de uma casa. E eu achava curioso porque via meus tios e meus sobrinhos, que trabalhavam o dia inteiro na roça, se vestindo de mulher à noite. Isso porque também havia os personagens femininos e eles passavam ruge, batom, areia brilhante, espelhinhos e tal, e eu achava curioso ver aqueles homens tão sertanejos. Na verdade, nunca participei do Reisado. Logo cedo, com 6 anos, fui estudar na cidade que ficava a uns 4 km da minha casa na zona rural. Então eu ficava observando. Via meu primos… porque nesse negócio tem o Urubu, que é o cara que come o Boi, e é sempre um pequeno, um menino. Tinha vontade de participar, mas nunca pedi e nem eles cogitaram me convidar. Acho que eles me achavam diferente… O menino que foi criado para estudar fora, na cidade. Muito da minha música vem desse contato com as coisas de meu pai e de ouvir minha mãe cantando ladainhas, terços lindos… Os vaqueiros que passavam na porta de casa tangendo gado e cantando os aboios, que é aquele canto monocórdico usado para tanger o gado: [imita os sons] “ôu, iêi, uôu, uôô”. E aí eles improvisam versos tipo “Minha mãe teve três filhos / Todos três interesseiros / Um deu pra tocá sanfona / Outro pra batê pandeiro / E eu dei pra beijá moça / Que é um serviço maneiro”. [risos] Esse foi o primeiro contato. Havia também os violeiros das feiras de sábado. Outra coisa foi que comecei a trabalhar com uns oito anos numa loja de discos na cidade. E lá ouvi muita coisa, ouvi tudo, pelo menos tudo o que era importante na época. Os discos dos Beatles, os discos de Luiz Gonzaga, de Marinês e Sua Gente, de Jackson do Pandeiro, do Trio Nordestino…
Almeida  Essa loja ficava em Catolé?
Chico  Ficava e chamava-se Lunik.
Almeida  E chegava todo tipo de coisa na loja?
Chico  Chegava. Posso dizer que vendi Araçá azul [n.e. Álbum lançado em 1972 pela Phonogram], do Caetano Veloso. Quer dizer, não só chegava, como vendia. Acho que a gente recebeu uns cinco Araçá e vendeu todos. A gente usava o disco pra passar trote, porque havia uns “converseiros” no disco. Ligava pra qualquer número – não era difícil porque eram somente três… 359, 367 – e quando a pessoa dizia “Alô?”, a gente aumentava o volume e deixava a pessoa escutando “Araçá azul”. [risos]
Fernando de Almeida  Será que não foi isso que ajudou a vender o disco?
Chico  Não sei, só sei que foram os cinco. Em compensação, no fim do ano chegavam uns cem, 130, 150 do Roberto Carlos. O dono da loja se chamava Onildo. A loja existe ainda, mas o forte dela agora não é mais música. Até comprei lá agora uns discos da Banda de Pau e Corda e umas coisas de Recife. O Onildo ia comprar os discos em Recife e trazia umas, sei lá, 10 caixas de Roberto Carlos. Vinham uns dez discos em cada caixa, e outras com cinco do Caetano, três do Chico Buarque. Acho que o Chico era mais popular na época. Mas eu escutava tudo… Bee Gees, Jackson Five, soul, música instrumental que, nessa época, era Noca do Acordeon – um cara muito bom que tocava choro na sanfona –, Waldir Azevedo – que vendia muito –, Altamiro Carrilho, que vendia bastante também. Havia o Dilermando Reis, que tocava a “Marcha dos marinheiros” [n.e. De Américo Jacomino, o “Canhoto”, gravada pelo violonista em 1960 no LP Abismo de rosas, Continental]. Na minha cabeça – e acho que na cabeça das pessoas do sertão daquela época – existia uma separação básica entre o que era nacional e o que era internacional. Nas prateleiras, a gente separava basicamente por esse critério, e a parede de música nacional era maior que a de internacional. O gosto não existia antes da audição. O cara podia gostar de Antonio Carlos e Jocafi e ir à loja pra ouvir o novo disco dos caras. Escutava uma, duas, três faixas, e se não gostasse não levava. Aí a gente falava que tinha esse disco da Maria Creuza. O cara ouvia e, às vezes, preferia e levava. Hoje, o gosto é muito associado a você querer se sentir de uma turma. Sou da turma do heavy metal, da turma do trash metal, da turma do forró pé-de-serra… E você não escuta outras coisas – que poderia gostar – pra não se queimar, não se misturar. O gosto era mais democrático naquela época.
Tacioli  Isso era da época ou da sua região? Quero dizer, talvez no Sudeste a divisão da música fosse mais segmentada, o que dificultava esse trânsito entre os estilos.
Chico  Talvez, e isso porque as pessoas ouviam João Gilberto alto e, depois, pediam para ouvir “A montanha” ou “Jesus Cristo”, do Roberto Carlos. Acabavam levando os dois. E digo isso porque, além de ficar atrás do balcão, eu era o cara que saía com a caixa de discos a procura dos clientes certos. Havia um cara que era o primeiro hippie, o primeiro cara da contracultura da minha cidade. Chamava-se Arionildo. Ele morava em um quarto atrás da casa da mãe, cabeludo, e eu, pequeno, ia lá. Então, quando a gente recebia o novo do Rolling Stones, o disco-solo do George Harrison, já levava pra ele. Para o gerente do Banco do Brasil, a gente já levava o do Benito di Paula, que era um hit da época. Era meio direcionado. E, ao mesmo tempo, levava uns lançamentos, como o primeiro do Quinteto Violado que tinha “Asa branca”, com a capa com um cavalo pintado com os músculos saltando [n.e. Primeiro LP do grupo pernambucano, lançado em 1972 pela Philips]. Não sabíamos para quem levar aquilo, porque não existia nada parecido com Quinteto Violado antes do Quinteto Violado. Tem “Asa branca”, mas o cara que gostava de Luiz Gonzaga talvez não gostasse, mas o cara do George Harrison ficava com os discos. Ou não. Luiz Gonzaga tocava sempre, todo dia de feira colocávamos música da região pra tocar, porque vinha muita gente da região rural. Colocávamos Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês. Havia os discos de pau-de-sebo. Então, sinto que o meu gosto foi feito em cima disso, dentro desse ambiente de diversidade, que nem era uma palavra usada na época. Foi assim. Eu era pequeno, 9, 10, 11 anos e, por mais patético que fosse, a gente se emocionava com “Coração de luto” [n.e. Registrada originalmente no LP autoral O gaúcho coração do Rio Grande, lançado pela Chantecler em 1961], do Teixeirinha, com músicas italianas, e isso pra não falar em músicas de filmes que faziam sucesso na época.

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