gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Chico César

ChicoCesar-940

Chico César

parte 20/20

É isto que as pessoas querem: ver negro para se divertir

Tacioli  Você está há 16 anos ininterruptos em São Paulo?
Chico  Ininterruptos. O maior tempo que fiquei fora daqui foi um mês e meio quando fui para a Alemanha em 91, e depois agora para produzir esse disco, quando fiquei 20 dias em Londres. Também fiquei três meses fazendo turnê no exterior. Europa, um mês, Estados Unidos, dois meses. Tudo emendado.
Almeida  Mas de residência, somente São Paulo.
Chico  Somente São Paulo. Engraçado que no Rio de Janeiro, quando comecei a aparecer, a fazer show, eu falava “Eu moro em São Paulo”, e o pessoal gritava, “Ninguém é perfeito!” [risos] “Vem morar aqui”. “Não, quem sabe!” “Casa, comida e roupa lavada!”, “Vem morar!”
Tacioli  Eu vi em uma entrevista sua que você ainda gostaria de morar na Alemanha.
Chico  Uns seis meses em Berlim.
Tacioli  Mas o que lhe atrai na Alemanha?
Chico  A diferença, o não-eu, o outro total. E também tem umas histórias… Gabeira morou lá. Tem uma coisa que eles dão uma bolsa e pagam pra você viver lá. João Ubaldo viveu lá uma época. E aí, tenho vontade. Se bem que agora já estou tão familiarizado por fazer muitos shows… Mas ainda gosto. Queria muito esse negócio de morar em um lugar em que eu não entendesse nada. E agora, tenho a sensação de que a história moderna, contemporânea, tem muito a ver com Berlim, as contradições; eles eram separados, tiveram um racha obrigatório, agora a reunificação. A história moderna passa por ali de alguma forma, com essa coisa da Alemanha reunificada, Berlim. O povo de lá é sempre louco, colorido, bebês coloridos, mães coloridas. Acho bacana! Fora do Brasil, tenho vontade de morar na Alemanha e em Barcelona, que eu acho um lugar bonito.
Tacioli  Um assunto que eu gostaria de ter abordado é sobre o preconceito. De uma forma ou de outra, a sua música trata dessa questão. E a Alemanha foi um dos grandes berços da intolerância. No entanto, no Brasil, temos isso infiltrado em nossa cultura política. Enfim, são dois universos bastante difíceis de…
Chico  Eu acho que a pessoa que conseguiu ser preta e pobre no Brasil vai conseguir ser estrangeira em qualquer lugar do mundo, entendeu? Puta, fui ver O invasor [n.e. Filme de Beto Brant], com o Paulo Miklos. Na hora em que o Sabotage [n.e. Nome artístico do rapper Mauro Mateus dos Santos] entra em cena, o público – que é um público de Jardins, fui ver no Cineclube Unibanco – começa a rir. É como se o fato de você ser negro fosse motivo de riso. Rarará! “Ele canta rap!” Rarará! “Como é que chama o seu amigo?” “Sabotage” Aí, todo mundo, rarará! Meu, o que há de engraçado nisso? O cara é negro, rapper e chama-se Sabotage. Ele está fazendo o papel dele. Será que ele é tão engraçado assim para a classe média? Será que a classe média não pode vê-lo como uma pessoa real?
Fernando  É como se não se pudesse ver um mano no cinema.
Chico  Não sei, viu. Acho que as pessoas não estão acostumadas a ver… Quando negro está lavando um carro lá no posto, tudo bem… Sabe um negro que se tornou chato? Carlinhos Brown. Ele saiu daquela função de percussionista, de balançar os cabelos na banda do Caetano. É genro do Chico, começou a fazer o disco-solo, a falar pra caramba, com um discurso cheio de variantes e mistérios. Muita gente acha o Carlinhos Brown um chato, porque ele fala muito. Pô, ele escutou a vida inteira branco falando qualquer coisa! Pô, deixa o neguinho falar um pouco! As pessoas estranham quando o cara começa… O cara saiu de uma banda, deixou de ser percussionista do Caetano, virou parceiro da Marisa Monte – branca, chique, Rio de Janeiro –, casou com a filha do Chico Buarque. “O que esse cara está fazendo aí?”, “Por que não eu, que sou branco, que estudei Semiótica? Eu que sempre entendi ‘Olhos nos olhos’!”. Aí vem um cara que é só um tocador de tambor… Mas não é só um tocador de tambor! É um cara representante de uma raça, de um segmento, que está esperando, que esperou muito pra falar. Então, na hora que abriu pra falar, fala atropelado mesmo. Vai dizer o que tem pra dizer e o que não tem. A coisa do Sabotage no filme ficou muito clara pra mim. Achei mais representativa a reação do público ao filme do que o filme em si. É isto que as pessoas querem: ver negro para se divertir. É como se fosse um filme desses americano, Will Smith. Ele não é isso. É uma outra coisa.
Fernando  Será que as pessoas não riram pelo estranhamento?
Chico  Mas como?
Almeida  Um riso nervoso.
Chico  Nervoso, nervoso. Pintou uma sombra aí na tela. “Ih! A sombra fala!” O problema é o seguinte: como estranhar? Há tanto negro na rua. Por que estranhar só por vê-lo no cinema? Até ali, no filme, só tinha branco. Branco, branco, branco. Quando aparece, já aparece assim, humano, negro, urbano. Ele pode tanto cantar um rap como puxar um revólver pra assaltar. É desse jeito que as pessoas estão acostumadas… Ele canta um rap e as pessoas ainda acham engraçado. Não é engraçado! É normal. Seria surpreendente se ele estivesse fazendo o papel de um professor de História e falando com sua filha, “Ó, filha, você precisa ler mais Kant! Esse disco do Thaíde é muito legal, mas essa peça do Djorak é importante também para a sua formação!” Isso poderia ser engraçado, mas não. E as pessoas ainda acham engraçado. É como se o negro fosse uma coisa folclórica, risível. E não é. O negro é importante na formação do Brasil. E se a gente não usar o que o negro tem para colaborar, todo mundo vai sair perdendo. Todo mundo.
Tacioli  Massa.
Chico  Deu?
Tacioli  Chico, obrigado.
Chico  Você poderia me levar de volta para a fotografia, hein?
Tacioli  Chico, obrigado.
Chico  Obrigado, gente! [sai para ser fotografado por Dafne Sampaio]
Fernando  Mas esse queijinho está muito bom.

Tags
Chico César
de 20