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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 19/20

São Paulo era uma mistura de Cubatão com Beirute

Sampaio  Chico, pra finalizar, queria tirar umas fotos com você.
Chico  Só minhas ou com todo mundo?
Sampaio  Já tirei de todo o ambiente.
Chico  É. Que câmera é aquela? É uma Yashica?
Sampaio  Não, é uma Mamya.
Chico – Eu fotografava com uma Yashica quando trabalhava na loja de discos.
Fernando  O que é isso que você está comendo?
Chico  Rapaz, dei uma mordida, é um queijo…
Assessora  Parmesão, mel e…
Fernando  Eu vou experimentar isso.
Chico  Manda brasa.
Dafne  Tá aqui, Chico. [Dafne mostra a câmera]
Chico  Você conhece a Yashica que abre em cima, também, né? Eu fotografava com uma dessas.
Dafne  É o mesmo modelo, como a Rolleiflex.
Almeida – Você continua fotografando?
Chico  Não. Posso dar uma olhada nela? Fui traumatizado aos 12 anos… Olha que legal!
Fernando  Muito bom!
Chico  A Yashica tem aqui embaixo… Essa lente dela é só a lingüetinha… E tem os quadradinhos, uma diagramaçãozinha…
Dafne  Exato. Essa tem somente um retângulo para você enquadrar. O foco é aqui.
Tacioli  Seis por seis.
Chico  Pô, mas muito legal. Eu ajudava o meu chefe – o dono da loja – a fazer festas de aniversário, de casamento. Eu trocava o filme e tudo, aquele filme compridinho. Aí, um dia teve um programa de emergência do governo, desses da seca. Eles cadastram os peões que trabalham na zona rural e tal. O patrão não queria tirar os caras da roça. Ele disse, “Vou buscar o fotógrafo para fotografá-los aqui no mato mesmo!” Eram muitos lugares. O patrão falou, “Vá você!” A máquina pesava. “Não, não, eu não sei fotografar” “Sabe!” Eu já fotografava, revelava, ajudava e tudo. “Pô, não vou, não!” “Vai, vai, vai!” Aí, fui. Tinha que fotografar os peões debaixo do pé de juazeiro, no mato, e eu, nervoso com o negócio. Fotografei uns dois, três filmes. Tudo fora de foco! Não tinha mais tempo. E as fotos dos caras tudo meio tremidinhas, sabe. Falei, “Nunca mais pego em uma câmera! Nem em Xereta.” Traumatizou geral. Mas quando vejo uma dessa – pra mim, câmera é isso -, “Pô, eu podia ter…”
Tacioli  Bacana, Chico.
Chico  Adorei a entrevista. Que bom que vocês não são jornalistas.
Tacioli  Pois é. Isso é um outro debate.
Chico  Legal, porque vocês gostam de música.
Tacioli  Na verdade, a conversa de hoje poderia ter tomado outros rumos, mas depende muito de como ela é conduzida, do que o entrevistado fala. Privilegiamos esses relatos, essas histórias.
Fernando  Afinal, o cara da PUC tinha razão a respeito do rosebud.
Chico  Por quê? [ri]
Fernando  Da semiótica, do marxista.
Chico  Nunca mais encontrei esse cara. Nem me lembro do nome dele. Faz muitos anos.
Fernando  Sempre rola um rosebud.
Chico  É. Essa história da chegada a São Paulo.
Fernando  Quando eu estava vindo pra cá [Bar Teta], pensei nisso. Os pais da gente  meus e do Dani  são de Ribeirão. E foi foda chegar aqui.
Chico  É?
Fernando  É. Cheguei com 19 anos.
Chico  Mais ou menos a minha idade. Eu cheguei com 20.
Fernando  E pensei como teria sido pra você, vindo de uma cidade pequena e mais distante ainda.
Chico  Na verdade, eu achava – por ver na televisão – que São Paulo era uma mistura de Cubatão com Beirute. [risos]
Fernando  Eu também tinha uma imagem parecida.
Chico  Só pam pam pam pam! Rota na rua, poluição.
Fernando  As pessoas não moram aqui.
Chico  É.
Almeida  Eu achava que ia morar numa sobreloja perto do rio Tietê! [risos] Sozinho, sem nada.
Chico  Primeiro passei um mês em Ouro Preto. Foi maravilhoso! Depois, fui para o Rio, ou para o que eu achava que era o Rio. Na verdade, era Barra Mansa, onde morava o meu irmão. [risos] Ele escrevia e dizia “Vem morar no Rio comigo!” Aí, eu fui. Cheguei no Rio e disse “Me leve ali em Barra Mansa!” O cara falou “Barra Mansa não dá!” [risos] “Dê outro endereço”, “Tem Santa Tereza”, “Santa Tereza dá!” E fiquei procurando Barra Mansa na cidade. Liguei na rodoviária, “OK, senhor, Barra Mansa fica depois de Volta Redonda. O senhor pega a Cidade do Aço…”. E aí morei com o meu irmão. Depois ele veio pra São Paulo e fiquei uns cinco, seis meses lá. Depois vim pra cá. Ele foi me buscar na rodoviária, num carro do sindicato, e me trouxe para a casa de uma amiga, aqui na Aspicuelta, na Vila Madalena. E aí, pô, noite de lua cheia, Vila Madalena há 16 anos. Havia uns três bares. Era maravilhoso, parecia uma cidade do interior. No dia seguinte, acordei cedo, sentei na calçada e, de repente, vem um homem todo encapotado, passando… Era o Arrigo Barnabé. “Puta, escolhi o lugar certo pra mim! É aqui que eu quero viver!” Na verdade, achei que a cidade ia ser muito pior como ambiente.
Fernando  Mas se você quiser, dá para ter uma vidinha de bairro aqui, também.
Chico  Aqui é maravilhoso, maravilhoso! É uma cidade até bastante provinciana.

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