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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 18/20

Lampião fez uma volta mais longa e não passou por Catolé

Almeida  Chico, última pergunta. “Catolé do Rocha, praça de guerra”. O que é a praça de guerra de Catolé?
Chico  Catolé é uma cidade que tem uma tradição, ou talvez, até um mito, de ser uma cidade bastante violenta, de famílias tradicionais que se enfrentam, onde as pessoas sempre falam, “Em Catolé, as pessoas matam um e deixam outro amarrado para matar no dia seguinte!” Isso tudo, na verdade, é fantasia. E há uma outra fantasia que é a seguinte: Lampião nunca passou em Catolé. Ele estava em Pombal – que é uma cidade antes de Catolé, e Catolé fica no caminho para o Rio Grande do Norte – e mandou um espia ver como estava a cidade. Ele sempre mandava alguém. Aí, o cara voltou e falou, “Capitão, tá todo mundo armado na cidade. De foice, bodoque, espingardinha de chumbo. A cidade inteira está lhe esperando pra quebrar o pau! Aí Lampião fez uma volta mais longa pra ir onde ele queria. E não passou por lá. Então, Catolé tem esse negócio. Existe, no Rio de Janeiro, uma praça chamada Catolé do Rocha, que foi onde começou a matança de Vigário Geral. A polícia chegou – foi uma vingança contra umas mortes que havia acontecido contra a polícia do Rio de Janeiro – e matou uns quatro ali no bar, que ficava na praça. E dali entrou em Vigário Geral. Matou uma família inteira e… Essa praça chama-se Catolé do Rocha que, provavelmente, é uma homenagem à minha cidade. As pessoas que começaram morando ali há muitos anos eram da cidade. Eu já tinha a música “Béradêro” e estava na Paulista – naquela banca quase em frente ao cinema Belas Artes, quase em frente à livraria, na esquina da Paulista com a Consolação – e vi, desenhadinho no jornal, as cenas do crime. Aí, praça Catolé do Rocha. Li tudo e saí andando com o negócio na cabeça. E aí nasceu essa última estrofe que fala do “Catolé do Rocha, praça de guerra / Catolé do Rocha, onde o homem-bode berra”. Pra mim, era como se a minha cidade, com o seu ambientezinho rural, da violência rural, da violência entre famílias, de machezas, se transferisse para a violência urbana, no Rio de Janeiro, com o ambiente do tráfico, da polícia. Compus na rua mesmo. Cheguei em casa e juntei com o resto da música que já existia e que já cantava antes. Agora eu canto sempre. As pessoas em Catolé acham que é uma homenagem à cidade. E é, também. Nasceu disso.
Almeida  Bacana.
Tacioli  Chico, obrigado.
Chico  E estas foram as suas últimas palavras. [risos] Foi uma conversa muito boa.

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