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Entrevistas de música brasileira

Chico César

ChicoCesar-940

Chico César

parte 17/20

Eu quero a síntese!

Almeida  Chico, as manifestações artísticas que estão despertando seu interesse são todas brasileiras, né?
Chico  É.
Tacioli  Me dá a impressão de que você faz questão de posicionar o eixo no Brasil para poder se expressar. Isso é consciente?
Chico – É. Parte da consciência de que se eu não me posicionar assim, vou me desequilibrar. Não posso achar que sou londrino, que sou africano, que sou cubano, entendeu? Acho que só me resta, como consciência – por mais doloroso e difícil que seja –, ser brasileiro. Gosto muito de coisas que são produzidas no Brasil. Vejo filme iraniano, escuto Ben Harper, escuto Björk, escuto Smoke City, mas a base, a alavanca é o Brasil. Mas é um Brasil crítico, ao mesmo tempo em que não sou um brasileiro ufanista. Sou bastante crítico com o Brasil. E me acho, de alguma forma, “desterritorializado”. Eu me estranho aqui, e isso desde o começo. Um desafio pra gente é pegar os elementos de brasilidade e combinar com o que existe, se for necessário. No meu caso, é necessário. Eu sinto necessidade de combinar. E agora, não sei porquê, me lembrei da pergunta anterior. Na literatura tenho lido João Antônio, que me foi apresentado pelo Ferrez, que escreveu Capão pecado (Labortexto Editorial, 2000). Eu comprei o livro naquela livraria do Cineclube Unibanco e li em dois fôlegos. Depois, falei “Quero falar com esse cara!”. Pedi ao escritório para descobrir onde ele morava e seu telefone. Aí liguei pra ele. Ficamos amigos. Ele me apresentou o João Antônio, que talvez tenha sido uma forma dele dizer, “Eu tenho a ver com esse cara aqui!” Aí, ele me emprestou o livro – faz uns dois anos já. Eu não tinha tempo. Comecei agora a ler um livro dele que se chama Malagueta, perus e bacanaço. São três caras que jogam sinuca. É fantástico. Muito bom! Um escritor dos anos 70, com uma contundência. Parece que, às vezes, quando o Brasil te ilude, quando aparece um Brasil vestido de lamê que te engana, surge um Brasil verdadeiro. Sempre como se fosse um drible do Ronaldinho Gaúcho. Quando o Brasil parece estacionado, estagnado, “Pô, o Brasil acabou, está jogando pelo empate!”, aí, “Não, o Brasil vai te mostrar uma beleza a mais!” E pode ser uma beleza como o Cronicamente inviável, que é só feiúra, é tudo punk, é pesado. É como o João Antonio. Se nós todos que trabalhamos com comunicação, com música, com dança, com cinema, com artes plásticas, mergulharmos – não com um olhar de gringo, não é aquela coisa, “Vamos olhar a capoeira! Vamos tomar caipirinha! Vamos comer feijoada!”… Somos mais do que a capoeira, nós somos mais do que a feijoada, nós somos mais do que a caipirinha. Nós somos gente. Não somos uma foto pra turista! Nem somos isso, nem somos uma cópia ruim das coisas que acontecem em Londres, em Nova York, em Milão. Aí eu acho que a gente caminha numa boa direção, sabe?
Tacioli  E isso é uma busca permanente?
Chico  Em mim, é. Eu fico surpreso que essa busca tenha me levado até Londres, Milão, Nova York, e me leve de volta para Catolé do Rocha. Catolé é simbólico pra mim. É como se fosse a minha tradução mais pessoal do Brasil. Eu preciso voltar lá de vez em quando. Eu tenho que voltar, fazer um show, encontrar os meus amigos da adolescência. E aí há um conflito. Tem um Catolé que quer se entregar a esse Brasil lamê, um Brasil que fica tocando música alta na praça da cidade, a música da pior qualidade, e um Catolé que estuda música erudita, que está lendo, que está fazendo cinema. Eu acho que é isso. E eu, pessoalmente, gosto muito de ser isso, de me identificar com isso. Há muitas contradições em ser isso, principalmente porque você não agrada de cara um lado ou outro. Não ao lado Tinhorão, que é um lado Brasil tradicional e sólido – eu amo o Tinhorão, eu amo esse Brasil sólido, mas eu não exijo que ele me ame! Eu amo! Pra mim, ele é uma base importante. E nem o Brasil da coluna fashion da Folha e dessas revistas. Eu freqüento todos eles porque quero a síntese!
Tacioli  Maravilha! Beleza?
Chico  Pra mim, está bom!
Tacioli  Chico, obrigado.
Chico  Depois eu quero uma cópia, tá?

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