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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 16/20

O Vitor Ramil é de uma delicadeza infinita

Almeida  Chico, você trafega muito bem entre música e a literatura. Tem alguma coisa que o toca hoje em dia?
Chico  Na música?
Almeida  Em qualquer manifestação artística. Tem alguma coisa que o surpreenda? Ou que o surpreendeu recentemente?
Chico  Olha, a última coisa no teatro que me surpreendeu foi o Vau da Sarapalha…
Fernando  Da Paraíba, né?
Chico  Do pessoal da Paraíba. São amigos meus de infância, o pessoal de Cajazeiras que mexia com teatro, e eu, com música. E até um amigo meu que mexia com música, que era do meu grupo, está também neste. Ele faz a trilha. É o Escurinho. Sabe aquela coisa que você vai ver como quem vai ver uma coisa de amigo? “Vou ver aqueles pobres coitados da Paraíba que estão passando um frio de lascar. Vou ver!” Aí, fui vê-los no Memorial da América Latina.
Fernando  É de arrepiar.
Chico  Porra! Eu fiquei… Chorei, fiquei mal. É muito bom! É como se fosse… Está à frente. E em teatro, somente Denise Stoklos me tocou tão profundamente. A Denise é perturbadora, né? Ela não faz nada… Ela não é entretenimento, por mais que você vá pensando “Ah! Vamos ouvir umas coisas fortes só pra mexer um pouco…”, como se você tomasse uma droga mais forte, como se você tomasse uma bebida mais forte. Você sai de lá sempre mexido. No teatro – acho difícil fazer teatro –, essas são coisas que mexeram muito comigo. No cinema brasileiro, o Lavoura arcaica [n.e. Baseado no livro homônimo de Raduan Nassar, e dirigido por Luis Fernando de Carvalho] foi um filme que me pegou bem. E o Cronicamente inviável [n.e. De Sergio Bianchi] que, aliás, alimenta uma discussão com uma amiga minha. Ela acha que o filme é reacionário, que o filme é paralisante, que você sai do cinema com a sensação de que tudo é ruim, que o MST é uma merda, que a burguesia é uma merda… E que por isso ninguém vai fazer nada. E, na verdade, não é essa a sensação que eu tenho do filme, tanto que ela foi uma pessoa que foi estimulada a escrever um folheto ou uma coisa questionando o filme e propondo mudanças e tal. Falei, “Nenhum outro filme que você assistiu a estimulou a fazer um negócio desse”. Porque não é fácil assim, com uma obra de arte, mexer tanto com você, como esse filme mexe com as pessoas. Sei lá, na música… Bom, a música é a área em que eu atuo e é mais convulsionada. É uma área mais contaminada pelo mercado, pela indústria e tudo. Há muitas coisas, desde o pessoal de Recife, de Alto Zé do Pinho, que sempre vem com um artista novo. Acho também que já está virando uma obrigatoriedade você ser de Recife e fazer alguma coisa que tem a ver com Recife. Maracatu e guitarras ali no talo. Mas tem… A Vanessa da Mata, que vem do Alto Garça, que não tem nada a ver com esse ambiente de maracatu, nem de eletrônico, nem de pop, nem de nada. Ela, como compositora e cantora, me tocou profundamente. É uma outra coisa, é um Brasil rural que tem a ver, ao mesmo tempo, com Clara Nunes e Inezita Barroso, mas só tem a ver com ela, é muito especial. É como se você conseguisse pegar um artesanato e, “Puxa, isso já não é mais artesanato. É arte, alta cultura. Já está em um outro estágio.” A Vanessa me surpreendeu bastante. Agora ela está fazendo um disco produzido pelo Liminha. Vamos ver o que vai acontecer. Mas sou sempre aberto a ver e ouvir coisas. Tenho escutado uma banda chamada Dona Zica, da Iara Rennó, filha do Carlinhos Rennó, que é interessante. É de São Paulo. Tem umas bandas de Minas… Berimbrown, que é bacana, uma das mais legais. No Espírito Santo, tem a Manimal, que mistura congo com rock. Vitor Ramil, do Sul do Brasil, que é de uma delicadeza infinita, poderoso, maravilhoso, tocando basicamente violão de aço. São lindas as coisas dele.

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