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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 15/20

Luni, Itamar, Mulheres Negras, eu queria ser um deles

Almeida  Chico, você já teve uma crise…
Fernando  Eu ia perguntar sobre esse lance da criação. Você tem medo de encontrar uma fórmula? Eu penso nisso quando desenho.
Chico  Sei.
Fernando  Como as ilustrações para o Gafieiras. Quando acho um caminho, começo a ter medo daquilo, de me acomodar e de não tentar outras coisas. Há essa preocupação em você?
Chico  Hoje em dia eu sei que, independentemente, se faço um funk, um baião ou um coco, tem muito a minha cara, tem muito do que eu sou. Sinto-me bastante livre para experimentar diversas coisas. Nada… Coisa que eu não gosto é ir na onda dos outros. Gosto de ir na minha própria onda. Não é porque agora o negócio é eletrônico, lounge, não-sei-o-quê, que “Vamos fazer um disco assim”. Eu não quero isso pra mim. Não quero fazer… E, normalmente, ou faço antes, ou depois, quando a coisa já passou, já virou, quando ninguém mais gosta, “Eu poderia revisitar aquela onda ali e criar uma brincadeira”. Mas muitas pessoas que a gente admira trabalham sempre com a mesma fórmula. E, às vezes fórmulas, muito mais compactas e concisas. Jorge Ben.
Fernando  O meu medo é esse, de cair num caminho com a certeza de que ele vai dar certo.
Chico  Uma coisa é você fazer mal-intencionado… Outra coisa é você fazer porque é natural. Você não precisa forçar a sua barra nem para ser igual, nem para ser diferente. Se você deixa os seus elementos aparecerem ali, eu acho que tudo bem. Mas você ia fazer uma outra pergunta, sobre a crise. Tem a ver com isso?
Almeida  Na verdade, pareceu muito linear vê-lo narrar sua história.
Fernando  Parece que sempre esteve na boa.
Almeida  Não na boa, inclusive, você falou dos seis, sete anos que ficou como jornalista em São Paulo sabendo que não era aquilo que queria fazer. Mas houve uma crise de falar “Pô, tem alguma coisa errada”.
Chico  Houve um momento, que é mais ou menos quando bateu seis, sete anos de São Paulo. Eu tinha chegado em 85, já era 90, e teve um show do Lenine com Bráulio Tavares no Caetano de Campos, ali na Praça da República. Esse show fazia parte do prêmio por terem ganho o Festival de Avaré. E aí, depois do show, fui conversar com o Lenine – a gente se conhece desde 82. “Pô, Lenine, tô achando que está muito ruim! Não há espaço pra gente se colocar. Já não sei mais o que fazer.” Aí ele falou, “Faça os festivais”. “Festival?” “Festival de Avaré é legal. O Juca Novaes é o organizador. Mande música pra lá. O público é bacana, você encontra gente do Brasil inteiro.” Esse foi um momento limítrofe pra mim. Eu estava no limite. Eu gostava do que fazia, gostava do caminho que eu imaginava pra mim, e gastava o dinheiro que eu ganhava produzindo fitas de demonstração, mas não tinha muito retorno. Isso, em vez de me fazer sentir um fracassado, me fez sentir um cara muito importante, o que era um equívoco. Eu achava que “Não sou aceito porque sou muito importante. Estou acima desses mortais!”, entendeu? E era uma besteira, mas era uma defesa que eu tinha. Eu achava que eu era… sei lá…
Fernando  Muito mais moderno do que os modernos.
Chico  Sei lá, que eu era inteligente demais, que fazia uma combinação do rural com o urbano, do passado com o futuro, do atonal com o modal e, na verdade, eu fazia canções. Mas pra me defender do anonimato, eu achava que era isso, e que um dia a massa iria comer o biscoito fino que eu fabricava. Eu achava, mas não sabia e não desejava ser um artista tão popular como sou hoje. Algo em mim cultua o específico, o extraordinário. Eu achava que eu era um artista extraordinário. Agora, não, vejo que sou muito ordinário. [risos] Que qualquer AM do interior de Minas Gerais pode tocar a minha música e que tudo bem. Eu queria tocar onde o Itamar Assumpção tocava. Eu não conseguia. Então, isso pra mim era o meu desafio. Ser um cult, entendeu? Ser considerado engraçado, como as pessoas achavam que o Luni era. Espirituoso, como as pessoas achavam que Os Mulheres Negras eram. E aí fui conhecendo umas pessoas, como o próprio André Abujamra, que começou achar muito legal as coisas minhas que eram muito pouco experimentais. Sei lá, ele ouvia “À primeira vista” e falava, “Pô Chico, que música bacana. Eu nunca conseguiria fazer uma música dessa”. E eu tinha dúvida, “Será que ele está tirando sarro?”. Imaginem o André Abujamra cantando [canta] “Quando não tinha nada …”, seria muito estranho. Eu achava que esse cara estava tirando sarro de mim. Eu ia ver o show dos Mulheres Negras na Praça da República, sintonizava a Rádio USP para ouvir aqueles programas que tocavam Mulheres Negras. Eu queria ser um deles, mas eu já não era no berço. Eu me criei ouvindo música popular. Acho que isso faz a diferença. Eu me criei vendo o olho das pessoas brilhando pra buscar na loja um disco de um artista popular. Então, há elementos em mim que são especiais, como a forma como eu lido com algumas informações. Quando cheguei a São Paulo, um rapaz que estudava na PUC, semiótica e tal, escutou uma fita de demonstração minha que tinha “Béradêro” e outras coisas. Ele falou, “De quem é essa letra?”. “Minha.””Mas, não sei, tem uma coisa joyceana aqui.” “Pô, bicho, sei quem é, sei que existe, mas nunca li James Joyce”, naquela época eu nunca tinha lido. Somente depois o procurei. “Não, mas é porque aqui tem… desconstrução. Então, você viu o Cidadão Kane, rosebud.” [risos] “Não, cara, isso aí é puro Nordeste”. Mas eu havia lido João Cabral. É que a gente busca muitas referências fora do Brasil, e acha que coisas que estão dentro…
Fernando  Não tem valor?
Chico  Ou que não, que são menos importantes, sabe? Eu tinha lido João Cabral, tinha lido Zé Limeira. A coisa mais avançada que eu li até hoje como poesia, não foram os irmãos Campos, não foi James Joyce, não foi Maiakóvski, não foi Camus. Foi Zé Limeira! Não é à toa que ele é chamado “O poeta do absurdo”. Um cara totalmente surrealista e, ao mesmo tempo, com base no real da caatinga, do sertão. Ele tem coisas tipo, “O velho Tomé de Souza / Governador da Bahia / Casou-se no mesmo dia / Passou a pica na esposa / Ele fez que nem raposa / Comeu na frente e atrás / E passou pelo caís / onde o navio trafega / comeu o padre Nobrega / E os tempos não voltam mais”. [risos] Pô, o cara fez isso! O que nego pode pensar, mas isso é só uma coisa dele. Há trezentas, entendeu? Coisas como em que ele junta Lampião e Maria Antonieta num verso e que faz e não faz sentido. E quando você chega a São Paulo e conversa com um estudante da PUC que, naquela época, comprava seus livrinhos na Livraria Belas Artes, há um Nordeste inteligente formado por Caetano, Gil, Tom Zé. O resto do Nordeste, para ele, era folk, entendeu? Era uma coisa camponesa, cafona ou näif. Mas, na verdade, o Nordeste não é näif. Como os livros e discos chegavam naquela época, você tinha tempo de ouvir e de refletir. Ali você tem um tempo de reflexão… E depois, o cara chega e “Você estudou não-sei-onde!” Não, isso é de lá. Quando Gil fala “A Bahia já me deu régua e compasso”, já deu mesmo. Você já vem pronto. Hoje em dia, não, as escolas são ruins, mas a mesma coisa acontece em São Paulo. Não sei como é a USP, a PUC, mas nós tivemos bons professores, desde o tempo de primário. Eu lia com prazer. Não era como “ler para o vestibular”, que eu vim ver aqui em São Paulo. Antes a gente lia porque gostava de ler. Ver uma pessoa com 17 anos lendo no sufoco, meio puto, “Pô, mas tem que ler isso?!”, isso pra mim não existia.
Fernando  Mas isso é muito individual, também.
Chico  Eu acho que era geral.
Almeida  Você ler Machado de Assis por obrigação é péssimo.
Fernando  Você lia porque estava a fim, mas provavelmente nem todo mundo lia por prazer.
Chico  Nem todo mundo, mas muita gente lia. Havia um estímulo geral, essa coisa de que é importante você…
Fernando  Isso não era muito mais de um grupo, das pessoas com quem você andava? Andamos também com pessoas que liam por prazer, mas isso é muito individual.
Chico  É, desde a minha casa. A minha mãe valoriza muito a leitura, de estar com um livro na mão. Ela mesma não lia tanto assim. Lia as coisas da Igreja.
Fernando  Mas você teve acesso a tudo.
Chico  Tive.

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