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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 14/20

"O Roberto Carlos quer gravar uma música sua"

Almeida  Chico, já aconteceu de você mandar uma música para um intérprete que você considerava o intérprete perfeito daquela música e…
Chico  Já, algumas vezes. Eu mandei mais de uma vez música para a Gal Costa. Ela não gravou. A primeira e única que a Zizi Possi, minha amiga, gravou é uma que eu já havia gravado, “Béradêro” [n.e. No álbum Mais simples, Polygram, 1996]. E aí, quando ela falou, “Chico, vou fazer um disco. Eu queria música. O ambiente é meio bossa-nova, bossa nova moderna, meio Sade, meio Sting”. “Vou mostrar umas músicas pra você, mas não sei se tenho”. Aí, pensei em um amigo meu que tocava guitarra e violoncelo na minha banda [n.e. O instrumentista paraibano João Linhares]. “Puxa, vou pegar umas músicas do João pra ver!” E aí, ela veio… Eu tinha certeza de que ela iria gravar uma dele. E ela gravou [n.e. “Qualquer hora”, quarta faixa do disco Bossa, Universal Music, 2001]. Um dia ela ligou do estúdio pra mim, “Chico, onde você está? Ai Chico, quero te mostrar uma coisa”, e eu pensava, “Ela vai mostrar a música do João”. E ela falou, “Escute aí!” e tocou. Era a música do João. Terminou, ela toda feliz, perguntei, “E a minha, você gravou?”. Ela falou, “Não!” [ri] “Eu sabia que você não ia gravar as minhas músicas”. “Ai, Chico, não tinha a ver com o projeto”. “Tudo bem. Tanto eu sabia o que era o projeto que chamei o João e pedi a ele para gravar as músicas pra você”. Às vezes, não rola mesmo. Eu mandei uma música para o Roberto Carlos de encomenda. Eles me ligaram. Como é mesmo o nome do tecladista dele? Eu sempre esqueço. Um cara que toca teclado com ele. Ele ligou pra mim, “O Roberto Carlos quer gravar uma música sua. Mande uma música pra ele”. No começo, achei que fosse um trote. “Deixe o seu telefone que eu ligo de volta.” Eduardo Lages é o nome dele. Aí, liguei. “Eu queria falar com o Eduardo Lages! Aqui é o Chico César, você ligou pra mim pedindo música para o Roberto.” “Ah! Liguei. Achei você um pouco estranho, como quem não está levando muita fé.” “Eu não estava porque… sei lá, poderia ser uma brincadeira”. “E aí, tem ou não tem música?” “Se não tem, a gente faz! Vou pensar”. Aí, pensei pra caralho, muito, mas não tinha. Um pouco inspirado na coisa do Roberto dos anos 70, compus “Pensar em você”, que é assim [canta] “É só pensar em você…”. Tem umas partes que são muito a cara dele. [canta] “Um dia a chuva cai / E eu só penso em você…” Compus, assim, de sessão espírita. Mas aquele Roberto que existe em mim já morreu. Não existe mais. Agora, ele é um outro Roberto. Esse não tem a ver comigo. Tanto que a coisa mais parecida com Roberto Carlos que eu tinha foi essa música que eu fiz e que mandei. Ele não gravou. Ela entra em uma longa lista de canções e autores que não foram gravados pelo Roberto. O Gil fez “Se eu quiser falar com Deus”, o Sérgio Sampaio fez uma chamada “Meu pobre blues”, que a Zizi gravou, o Herbert Vianna fez uma que depois ele mesmo gravou, uma música que fala sobre um negócio nas estrelas. É uma lista longa. O simples fato do Roberto Carlos, através de terceiros, ligar pra mim, cogitar em gravar uma música minha, pra mim já é uma alegria, sacou? Sou um compositor que entrou, assim, em algum momento, em um circuito pleno, um circuito onde todas as pessoas podiam se conectar. Isso pode ter sido um momento, pode acontecer de novo, mas o que realmente me alegra é a continuidade, é você ser gravado por Bethânia diversas vezes, Elba. Isso pra mim é a maior alegria. Rita Ribeiro. Você sabe que tem continuação. Vange Milliet me grava desde o primeiro disco. Virgínia Rosa. Aí, tem coisas curiosas. As pessoas antes falavam, “O Chico é o queridinho das cantoras”, mas muitos cantores já me gravaram. Quinteto Violado, MPB-4, Renato Braz, Xangai, Emílio Santiago. O Sting gravou uma música minha, do Ivan Lins e do Vitor Martins [n.e. “She walks this earth”, versão de “Soberana rosa”]. Imagina! – comecei a fazer discos em 94, são só sete anos – se há sete anos eu imaginava que pudesse vir a ser gravado pelo Sting? Ou mesmo pela Maria Bethânia. Ou mesmo pela Simony, entendeu?!
Almeida  Com o Sting foi um contato pessoal?
Chico  Não. Na verdade, o Sting cantou em um disco em homenagem ao Ivan Lins, gravado nos EUA [n.e. A love affair – The music of Ivan Lins, Abril Music, 2000]. Ele ouviu as músicas que havia e falou, “Quero gravar essa!”. Acho que muito mais influenciado pela melodia, que é do Ivan. A letra é minha e do Vitor Martins. Aí, tem uma versão. Ele canta em inglês. Em um dia você pode estar tocando para dezesseis pessoas em um boteco da Vila ou do Bexiga. E, sete anos depois, você pode ter versões da sua música no mundo inteiro. As coisas andam rápido.
Fernando  E vender discos em Catolé do Rocha.
Chico  Exatamente. Agora, a minha música deve ser a primeira nas paradas lá em Catolé. [risos] Porque eu mandei o disco… Fiz questão. Perguntei, “A gravadora mandou os discos para a Paraíba?” “Ah! Mandaram para todas as rádios!” Nada, mandaram para as rádios que eles acham que são as… E aí, falei, “Mas tem que mandar pra Catolé”. Catolé pra mim é muito importante, para que as pessoas não percam a noção do que eu sou. Não quero ser visto em Catolé, daqui a pouco, como alguém que é de outro lugar. Eu sou de lá. Tenho um ligação. E pra mim é importante tocar lá. Para o meu primeiro disco fiz o show de lançamento lá. O segundo também. Para o terceiro nós não conseguimos. Fizemos em Patos, que é perto de Catolé. E eu me lembro quando fomos fazer o primeiro festival de Montreux, como a banda estava toda nervosa. Ali havia tocado o Miles Davis e todos os papas do jazz. Falei, “Galera, aqui é igual Mossoró. Vamos fazer o que a gente sabe. Se fizermos bem, vai ser legal. Se não fizemos, vai ser uma merda! Mas vamos fazer o que a gente sabe fazer sem endeusar o lugar. As pessoas não estão aqui para ver o lugar, o prédio. Estão para ver a gente.” E eles “Pô, festival de Montreux, aqui tocou…”, e começaram listar os artistas que haviam tocado lá. Sei lá, se você entrar nessa… A gente toca na França, em um lugar chamado New Morning. Lá tem uma cadeira, um sofazinho, onde provavelmente já sentou Miles Davis, não-sei-quem, porque o negócio vem dos anos 50. Você vê as assinaturas nas paredes, a foto do cara tocando lá, e aí, “Eu vou tocar. É o que eu tenho que fazer.” A relação é outra. Os músicos têm uma relação de endeusamento com outros músicos, com os músicos importantes, com artistas internacionais. Eu admiro as pessoas, sou fã, acho o Festival de Montreux importante, mas tocar em Mossoró é tão importante quanto. Tocar em um festival em que, no mesmo dia, vai tocar o Lenny Kravitz é importante. Mas, pô! Tocar no aniversário do Quinteto Violado em Pernambuco, quando na mesma noite vão estar Chico Science, Xangai, Elba Ramalho, é demais, também.
Fernando  Isso vem de Catolé.
Chico  Exatamente. Tocamos às cinco da tarde num palco, e o cara vai tocar às onze da noite em outro, que é do mesmo festival. Pra mim, está tudo bem. Estamos hospedados no mesmo hotel. E na hora de descer você cruza com a banda. “Pô, a Sheila E.! Oi, Sheila E., tudo bem?” [ri] É assim mesmo.

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