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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 13/20

Para gravar um CD, pego os meus discos e os escuto na seqüência

Tacioli  Você fica atento à repetição de uma fórmula de um disco para outro?
Chico  Eu não componho para os discos. Componho porque componho, entendeu? Aí, quando vou fazer um disco, começo ouvir minhas próprias fitas com coisas que eu fiz há muito tempo, ou coisas que nem preciso ouvir, porque já estão na cabeça. Vou para um estúdio e gravo trinta músicas para ver como elas soam na minha voz, que idéias eu tenho. Aí, junto com o produtor, com a gravadora, escolho as músicas. A gravadora fala, “Pra você, o que é essencial estar no disco?”. “Isso, isso e isso”. E ela responde, “Disso que você apresentou, coincidem isso e isso, mas dessas que você acha que não são essenciais, também é importante ter isso, isso e isso. São suas, você que fez. Achamos que essas vão ajudar a gente a trabalhar” “O.K., tudo bem.” Você compõe um panorama do disco. Aí, vem o produtor “Mas eu acho que essa música e essa são redundantes. É melhor não ter essa”. Aí você tira uma. Você procura uma nas outras. E na hora de “Vamos gravar!”, pego os meus discos e os escuto na seqüência. “Meu primeiro disco era isso. O segundo era isso. O terceiro, isso. O que eu quero acrescentar a mim mesmo?” Por isso, nesse disco novo [n.e. Respeitem meus cabelos, brancos], antes de escolher as músicas, eu disse, “Quero trabalhar com um cara de fora do Brasil, porque essa coisa das pessoas saberem tanto – esse tanto é entre aspas – sobre mim, de “O Chico é Mama África, é “À primeira vista”. O Chico é…”, isso cria um ouvido viciado. Prefiro trabalhar com um cara que não tenha essa vivência. Um cara que nunca me viu no Faustão, um cara que nunca achou demais porque fui gravado pela Maria Bethânia, e que não tem nenhuma restrição por eu ter sido gravado pela Simony [n.e. A música “Vazio”]. Um cara que vai ouvir as músicas e pensar em um tratamento.
Almeida  Você foi consultado para a Simony gravar uma música sua?
Chico  Eu fui consultado. E achei muito bacana. Isso foi bem no começo. Foi em uma época em que todo mundo queria me gravar. Aí, a Simony também quis. Acho que o Mazolla estava produzindo o disco dela, não sei. “O que você tem?” Aí, eu tinha uma música com cara de Natal. “Acho que essa música pode rolar.” Eu dei e ela gravou. Não aconteceu nada com a música, porque também eles trabalharam uma outra coisa, uma música do Beto Guedes, não me lembro mais o que tinha no disco. Mas, realmente, nesse caso eu não tenho preconceito. Isso ficou mais claro pra mim ainda quando fiz um show no Dia Internacional da Mulher, no Tom Brasil. Eram dois dias. Em um dia tinha Daniela Mercury, noutro, a Elba Ramalho. Aí, em um dia tinha a Vânia Abreu, no outro dia, a Vange Milliet. E sei que num desses tinha a Simony. E a Simony foi tão bacana. No ensaio foi muito gente boa, muito tranqüila. Eu acho que o fato de ela ter trabalhado desde pequena, de ser filha de gente de circo, deu a ela um preparo para saber “ficar calada em determinado momento”, de ver quando o músico está passando um acorde e que não sabe ainda bem qual é. “Podemos?” “Podemos”. E no dia do show, não sei como ela arrumou uma camiseta do Dia Internacional da Mulher, rasgou as mangas, amarrou na cintura, e foi maravilhosa. Foi a pessoa que traduziu o que era aquele show. Às vezes, a gente pensa, “Fulana é tontinha! Deve ser uma bobinha!”, mas acho que, principalmente, essas meninas que começaram muito cedo, com 7, 8 anos, são macacos velhos. Elas ensinam mais para a gente. E também tem aquela menina que começou muito depois, mimada, filha de uma família rica, e que sempre quis ser a diva do alternativo. E aí o negócio complica um pouco. Não me lembro mais quem estava naquele dia: Vange Milliet, Badi Assad, Simony, Tetê Espíndola, todas que me tinham gravado até aquele momento eu pus no mesmo dia. Isso pra mim foi muito legal, porque não privilegio os intérpretes. Com o tempo vai havendo uma peneira natural. A Daniela gravou uma minha, a Bethânia gravou cinco, Elba gravou cinco, Xangai gravou duas, Renato Braz gravou duas, e aí vai. Tem gente que gravou uma e, “Puxa, não era ‘À primeira vista'”. Queria gravar uma que fizesse muito sucesso. E não é assim.

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