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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 12/20

"O que é isso?" É Salif Keita, um artista do Mali

Monteiro  O quanto essa sensação de “Sou um pop star” interferiu em seu processo de criação? Isso realmente pesa? Afinal, todo artista quer que o público cante suas músicas.
Chico  Olha, no processo criativo mesmo, eu acho que não interferiu. Pode interferir na seleção das músicas para um disco, entendeu? Nisso interfere. Seria desonesto dizer que não. Na verdade, foi até um estímulo, porque antes eu não tinha tanto estímulo pra ser quem eu era. Quando todas aquelas pessoas, moçadinha que podia estar se divertindo vendo outra coisa… Quero dizer, as pessoas não estavam somente se divertindo, elas achavam que eu era um farol, um guia. “Porra, não sou tudo isso, não!” E as pessoas contavam, “Eu vejo isso na sua música!”, “Meu primeiro namoro foi com a sua música!”, sabe essas coisas todas? Isso foi surpresa, ainda mais de pegar um público tão novinho. Esse público novinho foi que levou o disco pra casa, e o irmão da universidade ouviu nessa época. Às vezes, foi a mãe que comprou, ouviu e o cara roubou o disco para o quarto dele. Dou como um exemplo, a Luiza, filha da Zizi Possi. Quando fui visitar a Zizi, ela falou “Ai Chico, não-sei-o-quê, eu queria uma música como aquela sua que está…”. Ela não sabia se era a sétima ou a décima primeira faixa. Fomos procurar o disco. Ela procurou e não achou. “Puta, já sei! A minha filha roubou o disco e levou para o quarto dela.” A filha dela tinha 11 anos na época, era um bebê. Hoje ela tem 18. E aí quando ela chegou, menininha, de mochilinha nas costas, “Oi! Ah! Você não me avisou que ele ia estar aqui! É o Chico César!”, pô, uma menininha de 11 anos. Não era esse público que eu imaginava que fosse gostar… Mas ela gostava. E a Zizi falou, “Você roubou o meu disco!” “Está lá no meu quarto.” Pegou e trouxe. E aí, o fato de saber que tanta gente gosta da sua música e que pode vir a gostar, pode criar em você o desejo de agradar sempre, de fazer você pensar, “As pessoas gostam disso, então, vou fazer isso!”. Mas, por outro lado, o público que gostou da minha música de cara, era um público que queria ser surpreendido. Que foi surpreendido, “Opa, o que é isso?!” Então, isso me dá um estímulo pra não me repetir. “Se pintar uma coisa nova, vou colocá-lo em meus discos”. E eu fiz isso e faço sempre. Mas fiz um disco em que senti que o público não está tão preparado para ser sempre surpreendido ou quer ser surpreendido sempre da mesma forma. Então, tem gente que me pergunta por que eu não faço discos somente com voz e violão. “Eu amava tanto aquele Aos vivos…” Gente, voz e violão foi um acaso. Eu toco violão, mas gosto de experimentar sonoridades, quero experimentar coisas. Eu até achava que não tinha a ver comigo. Achava que era violão, uma percussãozinha e tal. Isso mudou quando ouvi Salif Keita. Eu estava na Espanha. Fui viajar com um amigo de Barcelona para Arnedo, uma cidade na região de La Rioja, e vi Montserrat Cabale cantar na festa da La Mercé, que é a padroeira de Barcelona. Esse amigo era o iluminador desse negócio. Depois fomos visitar uns amigos. Aí, ele pôs a fita do Salif Keita. Eu não sabia o que era. Acabou um lado e eu perguntei, “O que é isso?” “Isso é Salif Keita, um artista do Mali, que nasceu albino numa terra de negros, que enfrentou preconceitos porque ele era um bebê branco num lugar onde só nasce preto.” Aí, ele virou a fita. Fui ouvindo todinha sem dizer uma palavra. E quando acabou, fiquei pensando, “Porra… O cara nasceu em uma aldeia”. E quando voltei dessa viagem, que era aquela primeira ainda, de 91, em que fui para a Alemanha e aproveitei uma brecha e passei pela Espanha, quis montar uma banda. Ela se chamava Câmara dos Camaradas. Aí, convidei pessoas, pus baixo, teclado. Não queria botar bateria, só havia percussão no começo. Mas, ao mesmo tempo que esse público pode tentar te escravizar (“Você é o nosso objeto cult, nossa Chiva. Vai ser cultuado para sempre se balançar os braços sempre assim, assim e assim”). Ou seja, se fizer sempre violão e voz. E eu não queria isso. Era uma limitação pra mim. Do mesmo jeito quando a gravadora falar “Vamos fazer um disco cantando músicas românticas em espanhol”. Pra mim é uma limitação, entendeu? Sou um compositor, sou novo, tenho coisas a dizer. De vez em quando eles chegam e, “Escuta essa música do Juan Manoel Serrat”. Sei lá, um compositor muito popular e que canta em espanhol. “Escuta e faça uma versão”. Eu chego em casa e guardo a fita. Nem a escuto porque sou um compositor. Eu acho que essa é uma briga que você tem que ter sempre com gravadora. Um compositor é um cara que tem idéias.

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