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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 11/20

"Curumim, você é um artista!"

Tacioli  A comparação ao Caetano se prendia a quais elementos? Voz e letra?
Chico  O pessoal achava que a minha voz se parecia bastante com a dele. Se as pessoas até falassem, “Puxa, como as letras têm a ver com as letras do Caetano”, eu ia ficar mais contente, porque eu achava que as letras tinham a ver. Mas achava que eu tinha mais a ver com o Gil mesmo. Essa coisa de um artista negro que tem uma ligação com a África e que é do sertão. Mas não era uma coisa que realmente me incomodava. A primeira vez que eu vi uma música minha tocando na Musical FM, eu estava voltando de Avaré. Fiquei muito feliz. A Tata estava dirigindo o carro dela. Estávamos na marginal Tietê, entrando na cidade e, de repente, começou a tocar. “Curumim, você é um artista!” [risos] Pô, que legal. Fomos para o ensaio onde era o teatro do Bexiga, um teatro que tinha um outro nome, perto da Brigadeiro. Já havia sido Teatro do Bexiga, Teatro Rol. Chegamos lá e Mauro Sanches, que tocava percussão comigo, “Chico, sua música está tocando pra caralho! Tocando muito!” “Sério? Eu ouvi somente uma vez!” “Você entrou na cidade agora, mas você vai ver. Daqui a pouco você vai enjoar de escutar sua música.” [ri] E isso foi surpreendente pra mim. Eu ficava o tempo inteiro ouvindo a Musical para ter esse prazer de me escutar na rádio. Até um dia desses a gente tocava para dezesseis pessoas. Na gravação do disco Aos vivos, a platéia era formada por 40 pessoas. Tudo bem, chiquérrima, porque tinha Suzana Salles, Ná Ozzetti, Badi Assad, pessoas que já me conheciam. Mas eram 40 em um dia, 27 em outro. Deveríamos até pegar o borderô para ver quantos é que tinham. Era pouquinho, mesmo. Às vezes, até reconheço as vozes. “Opa, esse é o Carlos Careqa que está cantando ali, mais forte”. Eu reconheço, era pouca gente.
Tacioli  Qual era essa primeira música, Chico?
Chico  “À primeira vista”. Eu tinha uma empresária que não estava fazendo muita coisa. E, quando eu ia à Vila Madalena almoçar, passava em frente a um lugar chamado Bambu Brasil. Ali, eu via um cabeludo varrendo a calçada. Às vezes, trocava umas idéias com ele, escutava que tinha um ensaio de maculelê, de capoieira. E um dia eu perguntei, “Como faço para tocar nesse lugar?”. Aí, ele falava assim, “Ssissi, sissi, sossegado!” [ri] “Sei lá, vamos fazer uma quinta-feira.” Marcamos uma quinta-feira. E aí, quando fomos tocar – eu com a minha banda, que ainda não era a Cuscuz Clã [n.e. Formada por Swami Jr., Marcelo Jeneci, Simone Julian e Guilherme Kastrup], antes tinha sido Câmara dos Camaradas – aquele lugar estava lotado, cheio. Haiva umas 360 pessoas. E o lugar não era tão grande assim. Quando começamos a tocar “Se da minha boca vai”, o público em peso, sem treinar, sem nada, “Aí, aí”. Aí deu uma tremedeira nas pernas. “Gente, o que é isso?” E “Que da sua boca venha”, “ei, ei”. Era o público do Oswald de Andrade, do Logus, do Equipe. E eu que tinha passado a vida achando que fazia música para universitários, via aquelas carinhas de 16, 17 anos, e as meninas gritando, urrando, “Gostoso! Maravilhoso!”. “Pô, virei o Elvis Presley, o Ronnie Von!”, alguma coisa assim. Fiquei louco com aquilo! A alegria que eles tinham em cantar… E aí, eles começaram a me contar que eles compravam o disquinho e o levavam para a Chapada dos Veadeiros. Os garotos aprendendo a tocar as músicas. “A gente escuta a sua música o dia inteiro, e quando acaba a energia – era nesses lugares em que se desliga o motor – a gente toca as músicas no violão”. “Pô, acho que sou o Beto Guedes”, aquelas músicas de acampamento da minha geração. Pensei, “Uma coisa realmente está começando”. Ficamos quatro semanas no Bambu. As melhores lembranças que eu guardo da minha trajetória como artista são dessa fase. A gente tocava e o público ensandecido. Depois a gente descia, tomava umas catuabas, começava a tocar forró e ficávamos dançando: nós com o público. Foi uma fase muito romântica, de coisas novas aparecendo. Pra gente foi uma novidade. Depois vem essa coisa de você tentar, dentro da indústria, continuar sendo você e cada vez mais ser mais você. Esse é o desafio, independentemente de você fazer música ou não. É você cada vez ser mais você mesmo, entendeu?

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