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Entrevistas de música brasileira

Chico César

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Chico César

parte 10/20

"Ô, Chico César, sou o Pena Schmidt". "Quem?!"

Fernando  Mas nessa época você já era considerado moderno no Brasil?
Chico  Tinha um cara chamado Edmar Pereira, que fazia crítica de cinema no Metropolis e também escrevia no JT (Jornal da Tarde). Esse cara me viu cantar no Festival de Avaré. Depois ele foi ver um show meu no Bar Gargalhada, que era onde ficava o Clube do Choro, lá na Rua João Moura. Ele escreveu uma matéria falando “Puxa, o cara reúne o que há de melhor em Walter Franco e Caetano Veloso e tal”. Aí comecei a me achar mesmo. [risos]
Fernando  Isso foi antes ou depois da Alemanha?
Chico  Um pouquinho depois, mas ele me viu tocar antes no Festival de Avaré. Pensei, “Porra, tô no meu caminho”. Apesar de saber que não tinha o que de melhor existe no Caetano Veloso e no Walter Franco [risos], sabia que tinha um caminho. Ah, quando o Moacyr Luz me encontrou nesse festival de Avaré… Cantei “Béradêro”, que foi escolhida agora a melhor música de todas as edições do festival, mas o Moacyr falava assim, “Pense na Copa de 70”, pensei. “Pense no Pelé”, pensei. “Você é mais que o Pelé!” [risos] “Você é o Pelé, o Garrincha e tal” [risos] “Cê tá louco, cê é um carioca louco!” Porque havia essa música, “Béradêro”, que era muito importante no contexto do festival, não representava a obra, ela representava a si mesma. Aí o cara tinha essa conversa. Havia um vento a favor. Depois participei de outro Festival de Avaré com uma música chamada “Dança”. Participei dos festivais do Carrefour com “Espinha dorsal do mim”, que fala “É preciso ser grão / É preciso ter pão / É preciso ter paz / É preciso dar cu…”, é preciso não-sei-o-quê. E que era totalmente antifestival. Ela foi pra final, pegou terceiro lugar. Fui tomando gosto pelo negócio de festival e me animando. Na época do 2º Festival do Carrefour, quando escrevi essa música, eu já trabalhava com a Vange Milliet, que antes havia trabalhado com o Itamar Assumpção. A gente estava montando um show junto. Falei se ela não chamava aquela amiga que cantava também com o Itamar. Haviam duas, a Miriam Maria e “aquela ruivinha”, a Tata Fernandes. Queria montar uma banda. Veio essa turma, a Vange, a Tata, a Nina Blauth. No segundo ensaio eu já estava perdidamente apaixonado pela Tata. Ela falou coisas muito bonitas e tal, “A gente vai cantar com você no festival, mas com uma condição”. Pensei, “Ai meu deus, tomara que não seja dinheiro, porque não tenho nada pra essas moças”. E ela, “A gente queria que você montasse um show com suas músicas, porque a gente acha que elas são muito boas e não queremos cantar só uma. Queremos todas!” Isso foi uma das coisas que ela falou. A outra coisa ela disse foi “Você é jornalista…” – nessa época já estava fora da Fundação Oncocentro, mas seguia na Elle – “Porra, como é que um cara com a sua cabeça passa o dia inteiro revisando Capricho, as meninas perguntando ”dou ou não dou”, e não-sei-quê. Pare de trabalhar com o Jornalismo. Na pior das hipóteses você vai passar suas tardes comigo.” Eu falei “Opa!” [ri] Era tudo o que eu queria. [risos] E isso foi me dando muita coragem para ir largando o Jornalismo. Aí veio o Plano Collor, quero dizer, veio o Collor com a sua ministra da Economia, a Zélia, e aí as empresas começaram a demitir as pessoas. E a função do revisor estava em baixa. Cheguei um belo dia lá e eles falaram para mim, “Puxa, hoje foram demitidas 200 pessoas da Abril. Seis daqui, da redação. Foram demitidas fulana, fulana, fulana.” Sem parar. “Mas essa conta está errada. Falta alguém!” “Vamos fazer de novo. Fulana, fulana, fulana.” “Pô, falta alguém. Quem foi a outra pessoa?” “Aí, Chiquinho, desculpa, foi você!” A diretora, Maria da Penha, chorou, e eu fiquei consolando as pessoas que ficaram. [risos] “Gente, imagina, eu estava de passagem por aqui. Muito obrigado. Sei que vocês gostam de mim, mas o meu negócio é outro, tenho que cair na música de vez.” Isso foi um estímulo para eu cair na música de vez. Nessa época, o Egídio Conde (engenheiro de som), que havia me gravado em Avaré, mostrou a gravação para o Pena Schmidt, que estava na Warner. Na verdade, ele estava saindo da Warner. Eu era completamente desligado. Ainda sou. O Pena ligou na Elle, “Ô, Chico César, sou o Pena Schmidt”, “Quem?!”, “Pena Schmidt, da Warner”, “Ah, Warner!”, “Eu gostaria muito de conversar com você, nós estamos interessados”. Aí, passaram-se duas semanas, ele ligou de novo e falou, “Olha, na verdade, estou interessado, mas estou saindo da Warner e vou criar um selo…”, que era a Tinitus, que lançou o Virnalisi, Mauricio Pereira, Karnak. E ele resolveu me apresentar ao André Abujamra, falando “A sua música é muito legal, mas falta, do ponto de vista sonoro, um componente de modernidade”. Aí, me apresentou ao André. Ficamos meses fazendo coisas, de certa forma a gente evitou fazer o que teria sido o primeiro disco de uma série de música brasileira com influências rurais e coisas eletrônicas, entendeu? Seria um disco pré-Chico Science, pré-tudo. Era 1993. E o pior que eu vi passar pela mesa do Peninha uma fitinha chamada “Caranguejos com cérebro”, mangue beat e tal, Chico Science e Nação Zumbi. E o Peninha tanto enrolou com o negócio da Tinitus, que o Chico acabou indo para a Sony [n.e. Gravadora pela qual lançou os álbuns Da lama ao caos, 1994, e Afrociberdelia, 1996]. Resolvi gravar meu primeiro disco-solo, voz e violão, porque ele sempre achava que não estava pronto, “Você e o André ainda não estão legais!”. Aí, o Egídio Conde falou, “Vamos gravar um disco seu, ao vivo”. Aí, gravamos. No Festival, eu estava mexendo com uns samplers e não-sei-o-quê. “Tudo bem, vamos gravar, mas voz e violão.” “Mas cadê aquele cara com samplers?” “Não, voz e violão!” “Então, tá bom!” E aí fizemos e oferecemos para Tinitus, mais uma vez. O Peninha, mais uma vez, falou, “Acho que não é isso, não está pronto”. Aí, oferecemos para a Velas. E começou essa coisa na indústria e tal. Ao mesmo tempo que tinha essa coisa “Parece o Caetano”, eu sabia que havia um caminho próprio para mim. Eu achava que eu tinha muito mais a ver com o Gil do que com o Caetano.

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