gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Chico César

ChicoCesar-940

Chico César

parte 9/20

Tolinga, sprechen sie deutsch

Tacioli  Sua formação é de jornalista?
Chico  É, jornalista. Trabalhava como redator na Fundação Oncocentro e era preparador de textos na Elle. Bateu a época das férias e aí falei, “Vamos lá”. Fiz um show em um festival em Tübingen, sul da Alemanha. O festival era enorme. Tinha música da Itália, da Rússia, de muitos lugares. Toquei numa tenda do Brasil, não era muito grande. Sozinho, voz e violão. E toquei parte do repertório que viria a compor oAos vivos. Toquei “Mama África”, a versão do “Paraíba” era a mesma, “Béradêro”, e achei que fui muito bem recebido pelo público. Depois saiu uma matéria analisando o festival e a foto publicada foi a minha. Tinha mil coisas acontecendo, pessoas conhecidas que tocaram, mulatas brasileiras que, com certeza, dariam uma foto melhor do que a minha [risos] – e os alemães gostam da mulatice! – e, de repente, saiu uma foto minha com meu violão e o cabelo meio pra cima. Na legenda, “Um brasileiro, que tem o corte de cabelo meio John Lyndon, do Sex Pistols, não sei mais o quê…”. Aí pensei, “Interessante, acho que tem futuro pra mim aqui”. Por causa da foto no jornal começaram a pintar convites.
Almeida  Convites na Alemanha?
Chico  É, meio imediato. Fui visitar um lugar… Como era mesmo o nome? Agora não me lembro. Eles tinham uma programação que chamava Zeitsprung, que era uma coisa meio ”Um salto no tempo”. Zeitsprung? Não sei mais, só sei que a tradução era “Um salto no tempo”, uma coisa no futuro. Eles apresentaram aquelas loucuras de alemão, um cara que tocava vibrafone, aí de cada tecla que ele batia saía luz de uma cor e tal. Vanguarda da vanguarda. Teatro do não-sei-das-quantas… Fui lá, conversei com o cara. Quero dizer, tinha ido lá passear com um amigo, o Manfred, e gostei. “Queria tocar aqui, vamos conversar com o organizador”. Aí o cara, “Porra, o negócio é na próxima semana, não sei se tem lugar, preciso ouvir a fita”. Pegamos as bicicletas e fomos buscar a fita. Voltamos. O cara disse que ia ouvir e que me ligava às 11 da manhã do dia seguinte. Fiquei esperando o cara ligar e quando deu a hora, não tinha ninguém que falasse alemão na casa. Atendi [imita sotaque alemão], “Hallo! Bitte Chico César” [risos] Gritei, “Sou eu! Cê quer o quê?” [ri] Ele falava, “Sou aquele cara de ontem”, só que em alemão. Aí eu [faz tom de choro], “Tolinga [Algo como “que pena, eu não falo alemão”] sprechen sie deutsch” [risos] Ele, “No? Do you understand english?”. “A little”. E ele, “Take it easy! Take it easy, please!” [risos] Cala sua boca um pouquinho. [ri] “O.K., show O.K.!”. “Show O.K.?”. “Show O.K.!!!”. “Oh, thank you man” [risos] Depois o Manfred chegou, “Porra, Manfred, o cara ligou aí, ele disse que o show tá O.K., mas não sei”. [risos] “Não sei se ele ouviu a fita”. O cara ligou de novo e disse que tava O.K. mesmo, era tal dia… O mesmo dia do cara dos vibrafones. Comecei a pensar que minha intuição estava certa, de que eu funcionava em um ambiente moderno. O cara me chamou pra tocar naquele festival… Ah, lembrei o nome da casa. Era Sudhaus, Casa do Sul.
Fernando  Isso lá em Tübingen?
Chico  Isso lá, que era um lugar onde já havia tocado o Itamar Assumpção, o Jorge Mautner. Porra, e eu não conseguia tocar onde tocava o Itamar Assumpção aqui. Não conseguia tocar no Mambembe.

Fernando  Não era tão moderno assim.
Chico  Não era para cá, entendeu? Aí liguei para um amigo jornalista, o César Garcia Lima, e pedi a ele ir ao Crowne Plaza pegar meu book. “Agora eu é que não quero tocar lá!” [ri] “Pegue minha fita, meu book e mande pra Alemanha.” Eu não tinha nada. Fiquei lá um mês e meio, e tinha proposta pra ficar mais tempo. Se eu quisesse ficar tocando… Mas comecei a ver os esquemas. Você fica ilegal, depois vai trabalhar de garçom em um bar legal, numa boate, aí fazer showzinhos. Daqui a pouco ia ter que tocar “Garota de Ipanema”. [ri] Bem, cheguei a levar o encarte de um disco do João Gilberto chamado O mito [n.e. Coletânea de 38 músicas lançada pela EMI em 1992].
Fernando  O trabalho na Elle continuava aqui.
Chico  A Elle estava aqui. Liguei pro pessoal da Elle, “Chiquinho, imagina, pode ficar aí”. Eles arrumaram um substituto pra mim e falaram que não iam me demitir, só iriam pagar o meu salário pro cara, mas disseram que eu poderia ficar seis meses, o tempo que quisesse. Eles foram ótimos. Já na Fundação Oncocentro, onde eu era funcionário público, concursado e tudo, os caras não gostavam de mim. Tudo médico meio político. Eu ia com umas bermudas coloridas. Era pra entrar às 8h e eu chegava sempre às 9h, 9h30. Eu falava, “Jornalista não bate ponto!”, porque pela lei… Aí eles falaram, “O quê? Se você não tiver aqui no dia que vence as suas férias, a gente dá mais 10 dias e vai lhe demitir por justa causa”. “Então, porque não me demite agora? Aproveita e manda o dinheiro aqui pra Alemanha.” “A gente só vai demitir se você não vier, por justa causa, porque aí você vai perder tudo”. Porra, vou voltar e pedir demissão. Aí, voltei. Fiz ainda mais uns cinco ou seis shows lá. Voltei muito seguro do que eu era.
Fernando  Mas você já era moderno aqui?
Chico  Não. Tinha um cara que escrevia…
Assessora  Chico, vou nessa.
Chico  Tá indo?
Assessora  Tem um pessoal me esperando.
Todos  Tchau. Obrigado. Boa noite.

Tags
Chico César
de 20